antes de vos ter contado esta história triste passei vidas a aprender a dizer os lugares de onde me saem as palavras, os lugares onde nasce a vontade de dizer, os lugares do porquê das coisas, os lugares impalpáveis da ligação entre todas as coisas. Esta noite, antes de pôr a mesa, antes de vos dar banho, antes de cozinhar o vosso jantar e de arranjar forças para sorrir convosco eu sei que andei a viajar por todos esses lugares que são um e o mesmo. O lugar do que sou, o lugar do meu porquê e do meu como. Talvez eu não saiba amar. Agora que comecei, por fim, a aprender o que o amor não é, vejo-me a nascer num silêncio desconhecido onde pergunto: amo? sei amar? não sei. Emudeci. Apenas sei, com o coração, que o mais importante é traçar o sentido inverso da rota das palavras, das vontades, das intenções até chegar à fonte, e foi por isso que tive que contar-vos hoje uma história triste. Já está. Não estava nos meus planos mas já foi. Já começou a ser, e sei que é uma história triste que me aproxima de um amor maior, de um amor revolucionado, talvez, ou me faz mergulhar num silêncio qualquer onde tudo vai começar de uma maneira nova. Eu não queria ter que contar-vos esta história triste em que cada um de nós é uma personagem, não queria falar-vos, tão cedo, nem por alto, como afinal fiz, da fealdade, do horror e da incongruência dos homens, não queria emprestar sombras à vossa inocência mas aprendi, pelo caminho que, vezes demais, a inocência atrai o mal. E também sei que o melhor que posso transmitir-vos é a premência da lealdade ao ser interior que vos habita. Assim, segui o meu, escolhi tratar-vos como pessoas em crescimento, pessoas talvez habilitadas a conhecerem prematuramente certas facetas menos dignas da condição humana e cheguei a casa com uma história triste colada à alma, uma história triste que temos o dever de transformar em luz, uma história triste onde temos que procurar engrandecimento, uma história contada com brandura e com verdade, sem artifícios mas sem amargura. Depois sentámo-nos, como sempre, no sofá, a contar outras histórias, antigas, de princesas e rainhas, onde está sempre presente o confronto, quantas vezes terrível, entre o bem e o mal. Foi esse o meu sinal de fumo. Há momentos em que não vale a pena omitir uma história triste sob pena de se colaborar com a criação de muitas, tristes, falsas, inconvictas, estéreis e anti criativas. Não vêem como a criada mandou cortar a cabeça do cavalo? Como a bruxa cortou a trança à Rapunzel? Como o lobo mau devorou a avó? Como Hansel e Gretel foram abandonados na floresta pelos próprios pais? É assim que as velhas histórias nos descrevem o palco das monstruosidades humanas… Só lamento, e não é pouco, que a minha história triste desta noite não seja meramente simbólica e pedagógica, que seja tão absurdamente real…