E é chiquééérrimo! Usufruir de uma licença Sabática. O termo adequa-se lindamente à minha pessoa. Um sábado a perder de vista… Tempo! O tempo que está para a existência como o sangue ou as seivas para a vida biológica. Vou começar a acender todos os dias uma velinha branca, pela emergência da minha licença Sabática! Dizem que os anos bi-sextos são aqueles que nos trazem os acontecimentos mais insólitos, e eu até sou uma daquelas pessoas que acreditam em milagres, ou melhor, até costumo ser uma daquelas pessoas que vêem o extraordinário onde tantas outras vêem normalidades e banalidades onde tantas outras vêem magnificências. Foi por causa disso que a minha avó Deolinda que os deuses certamente têm, essa com quem convivi durante escassos momentos da minha vida, não mais do que quatro anos, suponho, essa que numa certa tarde de sol num certo Inverno deixou esquecido um ferro a carvão sobre uma camisa do marido para ficar comigo a comer laranjas no quintal, teve o singelo cuidado de avisar toda a família. As suas palavras não foram esquecidas, embora pareçam ambíguas, até ao momento, as ressonâncias que criaram em quem então as escutou e não esqueceu. A verdade é que me tocam recorrentemente, pois assentam que nem luvas em sentimentos e sensações por demais familiares… Foi assim que a minha avó Deolinda que os deuses certamente têm avisou a minha mãe e as minhas tias ao ver-me sentada em cima de uma manta, num dos terraços da sua casa encantada, ao ver como eu permanecia sentada, tranquila como uma esfinge e satisfeita como uma imperatriz rechonchuda, a brincar com uma linha que sobrou de um arranjo de costura: “Esta menina não é daqui, ela não é deste mundo…”
É para pensar nestas coisas e em uma porrada de outras que eu preciso urgentemente de uma Licença Sabática, e de ir ao supermercado comprar velas. Brancas, para acender aos meus arcanjos.
está na hora eu sei que está na hora
•Quarta-feira, 25 Janeiro, 2012 • 6 Comentárioscongeminações de uma princesa atlante e sua insensata interlocutora
•Sexta-feira, 20 Janeiro, 2012 • 8 Comentáriosmãe eu não gosto nada do meu corpo mãe. eu não gosto de ser quem sou. gostava tanto de ser outra pessoa mas tu continuavas sempre a ser a minha mãe, mãe. é que eu gostava tanto de ser umaloira de olhos castanhos.
eu compreendo filha. tu querias ser mais alta mais baixa mais magra mais gorda e também querias ter o cabelo liso aos caracóis loiro e moreno ruivo e cheiinho de madeixas e os olhos tu querias tê-los castanhos pretos verdes azuis cinzentos e amarelos e querias ser uma índiazinha uma tibetana uma preta uma chinesinha uma ciganinha e uma esquimózinha havaiana. Eu também. É por isso que posso sempre ser a tua mãe.
expresso. sem aviso de recepção
•Sexta-feira, 20 Janeiro, 2012 • 5 ComentáriosGostar de ti é uma espécie de soma multiplicada semelhante ou quem sabe tal e qual o infinito e elevada a uma potência desconhecida equiparável a um abismo.
dos números que ascenderam à música dos nomes
•Quinta-feira, 12 Janeiro, 2012 • 2 Comentáriose agora que já não laboro no openspace, agora que passei a fazer parte da ala do conselho de administração e deixei de ter acesso aos acontecimentos a que outrora chamei Fenómenos do Openspace, agora que vivo num silêncio quase irreal e com vistas largas para aquedutos de águas livres e torres de amoreiras, e logo num dia tão estranho como o de hoje em que me deparo com aquela velha e familiar dificuldade em pertencer aos lugares por onde me movo, logo hoje, repito, e a propósito de uma fantasia de última hora em torno de um apelido snobe, que é o que aqui mais abunda, uma senhora colega do métier ensinou-me a adornar também os números de telefone da mesma forma que se adornam os nomes que se querem sonantes e guardiões das mais nobres ressonâncias. A partir de hoje nunca mais será a mesma coisa, esse acto banal de dar o contacto telefónico aos meus semelhantes.
Ainda não vos facultei o meu contacto telefónico??? Mas que lamentável falha, ao fim de tanto tempo… Ora vejam:
dois um, sete de nove cinco, oito e zero zero quatro, o fixo. E o móvel? Também desejam o móvel? Pois muito bem: nove um e um, sete de três e dois, nove de sete seis.
Eu Conto. De Natal.
•Sexta-feira, 6 Janeiro, 2012 • 2 ComentáriosHavia uma voz por entre a amálgama de sonhos que sonhou naquelas noites numa cidade quase estranha. Sonhava com mares cujas vagas tudo devoravam, com viagens (in)apetecidas e temíveis, com desejos que não haviam sido desejados, com equívocos que o levariam a lugares aonde não deveria ir, aonde não queria ir. Sonhara, por entre o ribombar permanente dessa cidade quase-estranha-quase-íntima, com o vulto sombrio e insidioso de um qualquer alguém que o manipulava, perfurando a sua lucidez e fazendo explodir o fogo benigno da sua vontade verdadeira.
Mas havia uma voz por entre essa amálgama de sonhos, uma voz oculta no ribombar ininterrupto da cidade. Ou uma dor que o despertava e o obrigava a permanecer alerta, como que castigado, de pálpebras cerradas e olhos abertos para dentro, escancarados para o ribombar metálico da cidade revisitada, fixando o desamparo com que percorria a insónia, pensando em todas as histórias que nesse tempo paralelo se desenrolavam lá fora, desde os morros e desde os miradouros da cidade, lá fora desde o silêncio do céu.
Eram muitos os destroços que lhe chegavam nesses sonhos, nessas vigílias inusitadas, como armadilhas que o aprisionavam num imobilismo surdo, num silêncio em que fervilhavam sentimentos pungentes.
Talvez existisse, afinal, um destino, nessa cidade. Sim, uma espécie de destino que o ajudava a chorar. De noite abria os olhos e de dia chorava devagar. Pesavam-lhe nas pálpebras e em sentidos impalpáveis os sonhos que lhe atravessavam as noites como balas.
Olhava os transeuntes. Havia gritos que transbordavam dos sacos cheios de presentes de natal com que saíam das lojas. Pensava que era impossível que aquela amálgama de sonhos e de lágrimas nada tivesse a ver com toda aquela gente que deambulava pelas ruas fazendo arfar uma cidade quase-íntima-quase-estranha. Depois, havia o mar. Um mar que mais parecia uma ilha banhada por sonhos e incongruências humanas. Uma ilha banhada por uma margem fulgurante chamada Promenade.
O Mar Mediterrâneo é uma ilha azul ou uma música em surdina. A Promenade é mais poderosa do que o mar, e talvez fosse essa desordem dos elementos que comandava o embate nocturno, aquela amálgama de anti sonhos que lhe roubava o chão e as estrelas.
Mas, ainda assim, houve uma voz. Numa certa noite houve uma voz que carregava uma mensagem. Qualquer coisa sobre o que são os instantes. Qualquer coisa de traduzível em palavras simples. Qualquer coisa como isto: nem todos os momentos são instantes. O tempo não é eternidade. Sim, são muitas as ideias que temos para a vida ou sobre a vida, e muitas as intenções que a ela dirigimos, mas a vida é a vida. Os mares tornam-se ilhas. As cidades ribombam incessantemente. Os sonhos separam-se de nós. A noite divorcia-se do dia e naufragamos no correr do tempo, engolidos por momentos que não são instantes, num tempo que estilhaça a eternidade e por vezes há destinos, destinos que tomam a forma de cidades quase desconhecidas banhadas por um mar tornado ilha, destinos que nos esperam para nos ajudarem a chorar mais fundo e nos mostrarem um vislumbre de rendição em certos instantes à margem do tempo que são algo mais do que momentos. .
dream come true
•Quinta-feira, 29 Dezembro, 2011 • 1 ComentárioSonhavam mudar de vida, de certa maneira, mas nada de muito drástico. Podia dizer-se, sem margens de erro significativas, que eram pessoas simples. Carregavam longas histórias e gostavam de observar o mundo. Cada um deles deleitava-se a observar o outro a observar o mundo. Certo dia, em jeito de divagação, imaginaram-se como uma dupla de detectives privados especializados na perseguição e identificação de coisas boas. Das boas coisas que parecem más que se desenrolam nas vidas das pessoas e por vezes as cegam e paralisam. Enfim, um trabalho comparável à reedificação de uma cidade no rescaldo de um cenário cataclísmico. Mas pensando bem poderia alguma vez dizer-se que isso constituiria, para a tal dupla de potenciais detectives, uma mudança de vida, mesmo tendo em conta que não sonhavam com algo de muito drástico? Não teriam afinal esses seres quase simples o simples sonho de não mais traírem quem são e muitas vezes não souberam ser? Pensando bem não sonhavam mudar de vida, esses tais seres quase simples, mas apenas mudarem-se para dentro das suas próprias vidas e fazendo-o com o descaramento de quem desencadeia um acto infeccioso. Por querer e de propósito. São mais ou menos estes os votos de feliz ano novo desta que vos escreve de um punhado de partes (in)certas….
noites gloriosas
•Quarta-feira, 14 Dezembro, 2011 • 5 ComentáriosAo invés de ser um mês de sínteses, um tempo de se fechar magicamente mais um círculo da vida, o mês doze é uma época de histeria colectiva e de desperdício de forças vitais. O natal deveria acontecer mais vezes na vida como um momento escolhido de celebração, mas não. não é nada disso que acontece quase sempre. e depois temos aquelas coisas estranhíssimas que são os jantares de natal institucionais. Um dia eu juro que hei-de faltar a um destes, mas ainda não me sobrou coragem para o fazer porque até gosto do chefe, fraqueza minha. Gosto do chefe porque ele é um homem de bom senso e me trata bem, e foi, até, um bom aliado numa daquelas alturas brutais da vida de uma pessoa. É por isso que vou à festa. À exorbitante e irreal festa de natal, onde não me resta senão testemunhar um desencontro previamente marcado entre seres humanos que se crêem ou se querem pertencentes a uma determinada classe. Depois há a roupa, o calçado, as unhas, os cabelos e o esqueleto. O esqueleto e a carne onde assentam todos estes adereços. Isto para quem se deixa levar pelo empolgamento de ver a coisa de dentro para fora ou de baixo para cima ou para quem tem diálogos com o esqueleto, ou seja para quem leva a vida a dançar. Os convidados perguntam: qual é o dress code? e eu respondo à letra, livrando-me a custo da tentação de divagar. Vista-se a preceito por dentro, por exemplo, ou desnude-se de uma vez por todas para vermos quem espreita por detrás de tão prodigiosa fachada. Mas não, não cedo à tentação. Há o pão para pôr em cima da mesa lá em casa. Então os senhores que vão de fato escuro e gravata, e as senhoras que se aperaltem, é o que digo mais coisa menos coisa. Até que esta manhã uma distintíssima figura me pergunta «e a senhora como vai esta noite?», e eu penseii: «isto já é uma extrapolação!». E atrás de uma extrapolação de melhor ou pior tom oculta-se a oportunidade para descalçar uma bota em grande estilo, o que é a mesma coisa do que puxar-se um belo tapete. O único senão é que nem sequer estou ou estava nos meus dias. Tenho os olhos demasiado chegados ao coração e umas quantas lágrimas a acenderem-se por baixo dos adereços. Coisas mais fundas do que o esqueleto que me sustenta a carne, mas lá consegui arrancar ao caos contagioso de dezembro uma resposta que afugentou, cheia de risos, a distintíssima figura: «Eu??? Ora essa! Eu vou levar um vestido bastante acima dos joelhos… Na verdade e em rigor vai ser um vestido pelas nuvens…»
acho, sim acho.
•Segunda-feira, 5 Dezembro, 2011 • Deixe um Comentárioque descobri como gosto. ou talvez como sou. A viver a vida. As coisas pequenas e as dos mais diversos tamanhos. Simples à brava e no entanto quando o pensamento irrompeu eu soube que era uma daquelas sínteses que por instantes me devolve ao meu… quiçá familiar… brilho. Sim descobri como gosto e é assim: devagarinho mas com força. E sei que isto é uma síntese mais brutal do que possa parecer. Ou então uma paisagem onde sempre estive em silêncio e que por vezes me conta um segredo cintilante. Como os segredos segredados pelas verdadeiras crian;as nos momentos das infâncias verdadeiras… Devagarinho mas com força, pode ser?
constatação?
•Quarta-feira, 23 Novembro, 2011 • 1 ComentárioEra mais do que meramente jovem. Movia-se pela vida como se fizesse a travessia de um milagre.
Era uma coisa estranha que lhe acontecia por dentro do silêncio das palavras, por fora do tempo, em paralelo com os acontecimentos visíveis que davam forma aos seus dias. Havia em si um confluir qualquer, uma inclinação para a magia, uma vontade feita de fragrâncias de outros mundos.
haverão leis para as palavras?
•Terça-feira, 22 Novembro, 2011 • Deixe um Comentárioa suspeita ergue-se como a luz ou como as sombras. há pensamentos claros que por vezes me assaltam, como relâmpagos, ou como disparos de obturador que imobilizam um instante insólito. Deveriam as palavras servir para declarar o amor? Para deflagrar o amor? Haverão leis que atravessam, certeiras, a vida e as palavras? Leis há muito esquecidas que de repente se erguem como a luz e como as sombras? Digo isto porque só me apetece amar mas não reconheço os fundamentos de outrora para o amor. Os lugares são outros, os sentidos são outros, as palavras são outras, a luz é outra, o movimento é outro, e os timbres do silêncio, esses então…
