ponto de encontro

•Segunda-feira, 8 Fevereiro, 2010 • 2 Comentários

as histórias de amor,

com amor,

contadas por contadores de histórias que me mostram como e porque amam, como e porque morrem, como e porque dançam,  como e porque escutam, como e porque cogitam, como e porque choram,  como e porque se interrogam, como e porque se formulam, como e porque morrem, como e porque se recriam, como e porque se entregam, como e porque oussam, como e porque sonham, como e porque silenciam. A visão do vosso caminhar em vossos caminhos. 

à hora do costume…

ponte de encontro

•Segunda-feira, 8 Fevereiro, 2010 • 2 Comentários

Porque escuto o que não dizes e calo com amor, de olhos abertos por dentro, esse segredo precioso, há uma porta que transponho para te ver sem máscaras e vislumbrar como num espelho a sucessão dos meus enganos, as falhas da minha história, memórias insondáveis que aqui e agora se entrelaçam, a mudez que anseia ser tocada por palavras mágicas.

Vejo os teus lugares intocados, vejo o impalpável das tuas florestas sagradas e vejo também, desde um silêncio novo, os escombros – teus-meus-nossos –  onde por milagre haveremos de tocar um caminho que irradia.

Quero beijar-te com o sol na minha tua boca, com um rio a correr-me nos olhos, e ventos brandos pelas mãos e pelos dedos, como quem dança enquanto caminha, quero transformar-me no amor como quem morre no segredo precioso que não dizes e me ofertas, para lá dos mecanismos da vontade, se eu estiver presente em mim.

ponta de encontro

•Segunda-feira, 8 Fevereiro, 2010 • Deixe um Comentário

Inevitável: esse abismo – o teu olhar. O que esconde e revela esse brilho ou sua ausência. Não quero mas vejo. É esse o mistério do encontro e seu horror, sua beleza. Alguma vez saberei como o meu olhar tocou a tua essência, ou se é a minha essência que se debruça para a tua, ou se tudo isso é algo que nunca chegou a acontecer? … Ou sei-o, sim, sempre, e porque dói – a verdade – prossigo com a farsa ou fujo da alquimia, ou – aventureira – mergulho, sabendo que serei outra, insuspeita, por causa de um único momento?

street dance

•Segunda-feira, 8 Fevereiro, 2010 • Deixe um Comentário

Será o caminho uma sucessão de momentos multiplamente ligados a histórias habitadas por mortes e rastos luminosos e aromas e árvores visíveis e invisíveis e partículas de músicas e relâmpagos de vida e águas de céus e terras e vozes e movimentos e fragmentos do sublime?

Encontrei – pelo caminho – o espanto de ousar ver-me noutra voz, noutro corpo e noutra música. Pelo caminho encontrei o momento em que o meu passo esvaziado me trouxe uma visão nascente. Encontrei – pelo caminho – um mar em que vogavam esqueletos de caminhos mortos iluminados pelo brilho das estrelas. Pelo caminho rendi-me, chorei e morri. Depois vi-me de longe e soube que as minhas vontades foram os meus algozes. Pelo caminho não concebido que apenas é e apenas percorro, apenas aceito, apenas amo, descobre-me um pensamento que nasce num lugar novo impregnado num tempo caleidoscópico, sou animada por uma vontade que me dança, imersa no sorriso enigmático de um Eu que sempre quis nascer.

de como Tostoi apareceu para me ajudar a contar uma história triste

•Sexta-feira, 5 Fevereiro, 2010 • Deixe um Comentário

ainda em linha com a tónica de 2010 – o ano das lições de amor – Tolstoi apareceu de novo, como se fosse um homem de poucas palavras, ou uma estrela fulminante, com isto:

“Apenas uma qualidade clara nos permite aferir se um determinado acto é bom ou mau. Se o acto em causa acresce a quantidade de amor que existe no mundo, então é bom. Se separa as pessoas e cria animosidades, então é mau.”

Poderosa ajuda, e porquê? Porque quanto uma pessoa não tem outra alternativa senão a de contar uma história triste, deve fazê-lo com convicção, a partir de um lugar amoroso, e com a intenção mágica de  fazer refulgir a beleza nela oculta  e de, com ela, enriquecer o mundo.  Eu, que até nem bebo senão dedais de vinho tinto, daquele cujo sabor se vai revelando a pouco e pouco – flores e madeiras e temperaturas e inclinações do sol e dos socalcos nas colinas . estaria em condições de afirmar que com o Tostoi era mulher para ir para os copos, e de olhos fechados!  E se porventura  um dia, ou melhor,  uma noite, uma senhora noite,  os meus caros leitores próximos longínquos me apanharem atrás do balcão de um bar a fazer umas horas extraordinárias –  e, é claro,  à frente da secção de cocktails –  não hesitem em pedir um cocktail Tostoi.  Carinhosmente.

lembrem-me por favor

•Quarta-feira, 3 Fevereiro, 2010 • Deixe um Comentário

de contar a história de um homem mau que entrou no comboio na mesma carruagem em que eu entrei. não me restam forças, hoje, senão para balbuciar isto, em surdina: tenho cá a impressão de que as máscaras andam todas a cair por terra, de que a porcaria anda a ficar indisfarçada, de que a decadência humana começa a ser vista a olho nú, como se estrebuchasse num estertor ou num desespero, medindo forças com as sementes que andam no ar… alguma coisa no ar que temos que ajudar a parir… lembrem-me por favor… sorriu como um serial killer o desgraçado… curiosamente no mesmo dia da minha história triste. curiosamente.

descobri que sim…

•Quarta-feira, 3 Fevereiro, 2010 • 3 Comentários

que a abóboda celeste pode caber num envelope , da mesma maneira que a partir de um dado momento irreversível viramos páginas para sempre. Um só momento, repito.

sad story

•Quarta-feira, 3 Fevereiro, 2010 • Deixe um Comentário

antes de vos ter contado esta história triste passei vidas a aprender a dizer os lugares de onde me saem as palavras, os lugares onde nasce a vontade de dizer, os lugares do porquê das coisas, os lugares impalpáveis da ligação entre todas as coisas. Esta noite, antes de pôr a mesa, antes de vos dar banho, antes de cozinhar o vosso jantar e de arranjar forças para sorrir convosco eu sei que andei a viajar por todos esses lugares que são um e o mesmo. O lugar do que sou, o lugar do meu porquê e do meu como. Talvez eu não saiba amar. Agora que comecei, por fim, a aprender o que o amor não é, vejo-me a nascer num silêncio desconhecido onde pergunto: amo? sei amar? não sei. Emudeci. Apenas sei, com o coração, que o mais importante é traçar o sentido inverso da rota das palavras, das vontades, das intenções até chegar à fonte, e foi por isso que tive que contar-vos hoje uma história triste. Já está. Não estava nos meus planos mas já foi. Já começou a ser, e sei que é uma história triste que me aproxima de um amor maior, de um amor revolucionado, talvez, ou me faz mergulhar  num silêncio qualquer onde tudo vai começar de uma maneira nova. Eu não queria ter que contar-vos esta história triste em que cada um de nós é uma personagem, não queria falar-vos, tão cedo, nem por alto, como afinal fiz, da fealdade, do horror e da incongruência dos homens, não queria emprestar sombras à vossa inocência mas aprendi, pelo caminho que, vezes demais, a inocência atrai o mal. E também sei que o melhor que posso transmitir-vos é a premência da lealdade ao ser interior que vos habita. Assim, segui o meu, escolhi tratar-vos como pessoas em crescimento, pessoas talvez habilitadas a conhecerem prematuramente certas facetas menos dignas da condição humana e cheguei a casa com uma história triste colada à alma, uma história triste que temos o dever de transformar em luz, uma história triste onde temos que procurar engrandecimento, uma história contada com brandura e com verdade, sem artifícios mas sem amargura. Depois sentámo-nos, como sempre, no sofá, a contar outras histórias, antigas, de princesas e rainhas, onde está sempre presente o confronto, quantas vezes terrível, entre o bem e o mal. Foi esse o meu sinal de fumo. Há momentos em que não vale a pena omitir uma história triste sob pena de se colaborar com a criação de muitas, tristes, falsas, inconvictas, estéreis e anti criativas. Não vêem como a criada mandou cortar a cabeça do cavalo? Como a bruxa cortou a trança à Rapunzel? Como o lobo mau devorou a avó? Como Hansel e Gretel foram abandonados na floresta pelos próprios pais? É assim que as velhas histórias nos descrevem o palco das monstruosidades humanas… Só lamento, e não é pouco, que a minha história triste desta noite não seja meramente simbólica e pedagógica, que seja tão absurdamente real…

caberá o céu dentro de um envelope?…

•Quarta-feira, 3 Fevereiro, 2010 • 2 Comentários

Um Rei Mago fez-me chegar, em envelope almofadado, uma abóboda minúscula, de pedra, crivada, no interior, de cristais cintilantes. Um geodo, ao que parece… Isto faz-se? Enviam-se lugares assim na volta do correio? Caberá o universo, ou os céus estrelados que habitam o interior da terra – segundo dizem certos seres portadores de boas novas – em mero envelope de papel?

Quererá ele devolver-me aos lugares onde pertenço e dos quais a teia do destino e as ramificações da história me desviaram? Quererá ele dar-me pistas para a minha demanda? Sonhará ele com uma fada Sininho ou uma Polegarzinha que um dia se abrigará de uma tormenta sob os brilhos secretos de um casulo mineral que mais parece paisagem celeste esculpida por mãos de deuses?

Eles não me falaram, em pequenina, dos mistérios que levam esses Reis…

acordeón

•Terça-feira, 2 Fevereiro, 2010 • 7 Comentários

Comprei um par de binóculos com vista para os teus abismos

Trago sensores hipersónicos que vibram com os teus sismos

Não queria ver tanto mundo nem habitar tanta história

Nem vislumbrar o silêncio que a tua música explora

Nem chorar tanto por dentro por saber que num momento

O que é eterno se extingue

Ou será que em tanta história tanto mundo e tanto abismo

 O meu olhar não distingue

A música do silêncio, o interior da paisagem

O meu mundo do teu mundo

O teu vento a minha aragem

O mundo que expande a história  

da história que expande o mundo?