outra cidade qualquer

Onde habita o amor que me habita?

Eis-me de pé numa esquina de uma cidade que poderia ser outra cidade qualquer, tomada por esta tristeza límpida de criança. À minha esquerda, uma pequena multidão espera, impávida e expectante, a abertura de uma loja. À minha direita os transeuntes percorrem impiedosamente a avenida principal com a determinação de quem conhece bem os seus porquês e o seu destino, o que quase me espanta. Do outro lado da avenida há uma igreja antiga, de pedra. E há uma carrinha funerária estacionada. Impossível não vê-la estacionada à porta da igreja pois brilha intensamente, destoando, na sua impecabilidade, da algazarra renovada de mais uma manhã na Terra.

Olho uma primeira vez e vejo dois homens de fato e gravata, mas está calor. Muito calor nesta manhã. Olho de novo e parecem-me três. Usam óculos escuros e mantêm-se de pé com uma solenidade ficcional. Olho uma terceira vez. Os homens parecem multiplicar-se como se brotassem do asfalto da avenida ou das pedras da igreja. A cena ostenta um silêncio de sonho, mas talvez o silêncio de que falo nem sequer seja real porque estamos numa avenida, e deste lado dela vejo que os homens se movem de forma comedida e trocam palavras. na verdade nada me diz que o motor da carrinha funerária não esteja a ronronar maquinalmente, indiferente à história de mais um defunto.

Pergunto-me se não estarei prestes a elevar-me verticalmente como fazem os seres fantasmagóricos que veem o mundo por dentro do paradoxo de uma distância próxima, porque de repente sinto que olho ao longe e quase em câmara lenta, quase sem pensamentos, um cenário da vida humana neste planeta, numa cidade que poderia ser outra qualquer, e sinto-me apenas presente e pequenina na limpidez desta quase familiar tristeza de criança. Pergunto-me se continuo em busca do lugar que habita o amor que me habita, porque o abismo por onde este vento uiva é tão fundo que me trespassa o peito e explode olhos afora ao encontro de um possível rumorejar de silêncio, o que poderia acontecer noutra cidade qualquer.

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~ por lisadeoliveira em Domingo, 22 Setembro, 2013.

Uma resposta to “outra cidade qualquer”

  1. O amor
    é uma ave a tremer
    nas mãos duma criança.
    Serve-se de palavras
    por ignorar
    que as manhãs mais limpas
    não têm voz.”

    Eugénio de Andrade

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