páscoa possivelmente feliz.

•Domingo, 20 Abril, 2014 • Deixe um comentário

Quase novo – e digo quase porque de alguma forma sei que já foi assim, ou que é assim, sempre, na verdade inteira do que sou naquele lugar aparte do correr dos dias… – isto de sentir que estou onde tenho que estar, onde quero estar, onde preciso absolutamente de estar no presente do indicativo. Não quero mais, não preciso de mais, apenas estou aqui numa nesga estreita de silêncio que o cavalgar do tempo me concede hoje, aqui, agora. Uma voz de mulher espalha ao de leve canções íntimas. Lá fora chove. Não me pesam os desejos. Estou disponível para isto, para este quase novo que sempre me habitou e agora tantas vezes me visita como um desses pássaros que por razão nenhuma por vezes se atrevem a poisar perto e quase nos entram por uma janela entreaberta, talvez porque não se sintam ameaçados pela voracidade humana, ou talvez porque se tenham descuidado, ou, quem sabe, porque o dia é alegre. Sem ter pensado nisso, dou-me conta de que estou a viver uma páscoa verdadeira, frugal, silenciosa, meditativa e estranhamente feliz. O engraçado é que nem sequer foi de propósito…. e é mesmo bom. mesmo bom.

dois mil e catorze soma sete, e há momentos. Momentos

•Terça-feira, 14 Janeiro, 2014 • Deixe um comentário

a partir dos quais não só tudo se transforma como começamos a fazer parte de tudo o que se transforma, e isso acontece com uma força arrasadora. As palavras com que sempre se escreveu desaparecem e ressurgem de formas desconcertantes, com novos pesos, novas sombras, novas cintilações. Para dizer a verdade o que surge é mais como um silêncio que ruge por espaços outros. Coisas que desaparecem por entre as mãos da gratidão porque já foram cumpridas, como as chuvas, os beijos, as colheitas, as confidências ou a sucessão dos dias e das noites, ou como algo maior que dança perante nós num movimento destituído de culpa ou privação. Num momento a mente pensa: é preciso desaprender. Noutro, sem pré-aviso, o ser abandona-se às ondas da vida e tudo passa a ser novo, deixamos de caber onde sempre-nos-vimos-sempre-nos-viram, desaparecem todas as miragens e resta apenas a possibilidade de amar e o absurdo de todas as criações da mente e da memória e do futuro, resta apenas ser, resta somente o pulsar do desconhecido e um sentimento novo que vai crescendo caleidoscopicamente até ao infinitamente pequeno, até ao infinitamente grande como dizem as frases do Tao, e é preciso viver de-verdade, pronto, viver mesmo-de-verdade, o que quer que seja.

à disposição dos homens

•Quinta-feira, 12 Dezembro, 2013 • Deixe um comentário

Tanto silêncio à disposição dos homens.

Estou a falar daquele silêncio visível que avistamos quando fazemos travessias aéreas e vemos o mundo acima das nuvens e dos ocasos que turvam as paisagens dos homens. É impressionante como esse silêncio por vezes oblitera o rugido dos motores dos aviões. Além de uma partida e de uma hipotética chegada, o valor que pagamos pelo bilhete cobre uma viagem mais subtil que se traduz na possibilidade de contemplar esse silêncio tangível, essa luminosidade perpétua que envolve planetas e atmosferas e nos relembra de que tudo é luz e de que todos os sons fabricados na existência provêm de uma fonte de silêncio habitada por uma sonoridade matricial inescapável e sublime.

Em dias assim, com tanto silêncio à disposição dos homens –  e talvez este seja um deles… –  por instantes o corpo mergulha a pique nessa consciência de viajante das esferas, sentindo mais do que nunca a fragilidade e, quantas vezes, o nonsense de tanta atividade humana, quando, estranhamente, ninguém nos ensinou que vida é esta que está à disposição dos homens, que silêncio é este que está à disposição dos homens, que morte é esta que está à disposição dos homens.

procura-se escritor

•Quarta-feira, 27 Novembro, 2013 • 2 Comentários

lembro-me de despertar no silêncio da noite, um frio silencioso beijava ao de leve a pele da casa, o vidro por onde espreitava o luar. Gosto de existir dessa maneira, de despertar dir-se-ia que apenas para constatar que existo naquele momento, naquela noite, de saborerar a oportunidade de olhar a vida mais uma vez e dar-me conta de uma espécie de curiosidade que me cresce pelo desenrolar de quase todos os dias ocupando um espaço movediço. Quando desperto desta maneira vem-me à cabeça a ideia de que o facto de existir no universo, de flutuar enraizada nesta imensidão constitui por si só um milagre deveras estranho, uma coisa quase impossível e penso mais ou menos isto: é preciso deixar a verdade respirar. Depois torno a imergir nas mantas, acomodando-me de ventre para baixo, recolhendo-me no refúgio do meu ser e por momentos temo a insónia, apenas por momentos, como se uma parte de mim não acreditasse que a certa altura  se tornou possível despertar assim para um pensamento infantil, apenas para saborear o inexplicável. Um escritor arranjaria um nome para isto.

o título é opcional, é o que dizem aqui nos bastidores do wordpress.

•Segunda-feira, 7 Outubro, 2013 • Deixe um comentário

a certa altura temos a certeza de que podemos passar o tempo… bastante tempo…  em silêncio e sentir por dentro uma espécie de fogo a que talvez possamos chamar alegria, entre muitos outros nomes, imagino.

fifty-fifty, se não enlouquecermos de vez

•Domingo, 22 Setembro, 2013 • Deixe um comentário

O fifty-fifty é uma abstração do homem moderno, coisa puramente mental.

Quando eu navego solitariamente pelos abismos que me couberam, ou quando morro, ou dou à luz, ou me transfiguro num orgasmo, ou alimento do meu seio um ser chegado de novo, não posso, não sei como partilhar fifty-fifty essas forças da natureza que acontecem por dentro do que sou. Apenas posso abraçá-las. Abraçar o medo, abraçar o êxtase, abraçar a dor, abraçar a minha medida única de paz e de desconhecido.

É esta reverência de um abismo perante outro que tanto falta no sentir dos afetos fifty-fifty.

Passei muitos dias a viver a ilusão terrena do fifty-fifty-por-amor, do igual-para-igual, e o que sobrou de tanto viver foi a certeza de ter sido invisivelmente devorada, e de que lamentavelmente ninguém nos fala sobre as coisas que realmente contam: o amor, a morte, o sofrimento, as ruínas do ser verdadeiro que agonizam sob os dias que vão ficando uns atrás dos outros. em fila. Para sempre se não enlouquecermos de vez. Para sempre  se não nos sentirmos despedaçar de vez.

outra cidade qualquer

•Domingo, 22 Setembro, 2013 • 1 Comentário

Onde habita o amor que me habita?

Eis-me de pé numa esquina de uma cidade que poderia ser outra cidade qualquer, tomada por esta tristeza límpida de criança. À minha esquerda, uma pequena multidão espera, impávida e expectante, a abertura de uma loja. À minha direita os transeuntes percorrem impiedosamente a avenida principal com a determinação de quem conhece bem os seus porquês e o seu destino, o que quase me espanta. Do outro lado da avenida há uma igreja antiga, de pedra. E há uma carrinha funerária estacionada. Impossível não vê-la estacionada à porta da igreja pois brilha intensamente, destoando, na sua impecabilidade, da algazarra renovada de mais uma manhã na Terra.

Olho uma primeira vez e vejo dois homens de fato e gravata, mas está calor. Muito calor nesta manhã. Olho de novo e parecem-me três. Usam óculos escuros e mantêm-se de pé com uma solenidade ficcional. Olho uma terceira vez. Os homens parecem multiplicar-se como se brotassem do asfalto da avenida ou das pedras da igreja. A cena ostenta um silêncio de sonho, mas talvez o silêncio de que falo nem sequer seja real porque estamos numa avenida, e deste lado dela vejo que os homens se movem de forma comedida e trocam palavras. na verdade nada me diz que o motor da carrinha funerária não esteja a ronronar maquinalmente, indiferente à história de mais um defunto.

Pergunto-me se não estarei prestes a elevar-me verticalmente como fazem os seres fantasmagóricos que veem o mundo por dentro do paradoxo de uma distância próxima, porque de repente sinto que olho ao longe e quase em câmara lenta, quase sem pensamentos, um cenário da vida humana neste planeta, numa cidade que poderia ser outra qualquer, e sinto-me apenas presente e pequenina na limpidez desta quase familiar tristeza de criança. Pergunto-me se continuo em busca do lugar que habita o amor que me habita, porque o abismo por onde este vento uiva é tão fundo que me trespassa o peito e explode olhos afora ao encontro de um possível rumorejar de silêncio, o que poderia acontecer noutra cidade qualquer.

 
Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.