summer breeze

Sou um abismo e choro sem norte no silêncio de amor que me trespassa. São  gumes. Lá fora está sol. Há lugares abandonados que repousam enquanto o verão se escoa. Há árvores tropicais que alguém plantou em lugares que já passaram de moda. Árvores que cresceram desmesuradamente em jardins que deveriam ser disciplinados, jardins que transgrediram o jugo do estado novo. Jardins que cresceram ao lado de caravelas esculpidas na pedra para sempre. Caravelas que se repetem de escadaria em escadaria, caravelas de pedra enegrecidas que relembram a barbárie heróica dos descobridores, caravelas do estado novo aquecidas ao sol, abandonadas em jardins fora de moda, caravelas patéticas, despropositadas, vazias, que num instante transportam aquele abismo que eu sou. Ouve-se o canto das cigarras e não se ouvem os gritos que me aguçam os poros. Prefiro manter o silêncio e esperar que passe a tempestade de areias, a tempestade que submerge e cega, a tempestade-armadilha mas nem sempre se sabe se esse silêncio de quem espera as cintilações do tempo é um silêncio de amor, e eu bem queria tocar o silêncio, esse silêncio de saber sem tempestades o que é o amor, o que são os seus contornos, as suas sombras, os seus símbolos. Sim lá fora está sol e é Agosto e os corpos são densos no verão. A carne dos corpos entra-me nos olhos e nas unhas e aloja-se entre os dedos e eu choro com os gumes com o sexo com as palavras que me silenciam os gritos, com as palavras que adormecem ao sol, indolentes, inúteis. Tão cheias que pesam nos meus ombros como rochedos. Eu choro, imobilizada com as palavras que poderiam sair como balas e o coração retém, com medo da violência que arrastam. Choro em frente a um espelho sem fim. Será um sonho que sonhei enquanto dormia ao teu lado e lá fora a brisa espalhava o aroma daquelas flores amarelas que desabrocham como uma tribo de falos húmidos? Nua em frente a um  espelho sem fim e em silêncio aos gritos onde vejo nevar, ao longe, onde vejo os lugares da inocência, onde vejo desertos , cidades esmagadoras, montanhas intocadas, falésias majestosas, marés de todo o sempre, todos os rostos de todos os lugares de todos os tempos de todas as viagens de todos os anseios de todas as canções e choro. Choro pela simplicidade que me abandonou para todo o sempre, choro pelos mares do sul onde não nasci e não irei morrer, choro pelo chão sagrado que não piso, choro e arrasto-me sobre um chão conspurcado à procura do céu que o toca, das estrelas que o eternizam. Não sei quem sou num abismo ao som das cigarras, não sei quem fui quando olho o furor dos corpos o desespero dos corpos no veraneio, não sei quem és talvez sejas uma espécie de anjo talvez sejas um olhar que eu não entendo talvez sejas um eu que me habita por dentro e que eu amo de um lugar novo onde reina um silêncio novo e tenho medo. Medo de temer medo de saber demais medo de cair fundo no céu medo de não ser simples medo de não ser a beleza do que sou medo de perder a luz medo de silenciar a verdade que me recorta contra as sombras medo de desaparecer sem ter brilhado de amor.

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