do aparecimento de uma princesa atlante

7 de Abril, 2004

 

Não nasceu numa ilha mas num hospital. Em todo o caso é uma filha-ilha. Banhada de encantamento por todos os lados Por vezes fustigada por poderosas ondas quando se empertiga nas suas pernas muito direitas, fazendo frente a tudo.

Inoportuna, deliberou nascer na calada da noite, à hora a que os ascetas despertam para a primeira meditação de cada dia, embora os especialistas na matéria tivessem  repetidamente assegurado que a coisa só se daria na manhã seguinte.

Fizémo-nos à estrada já de noite, a ouvir Gilberto Gil e atentos à cadência das contracções; para o acontecimento, após o banho, vesti aquele inesquecível vestido de seda vermelha com duas tiras que se apertavam nas costas. Por alguma estranha razão estes momentos costumam fazer-me sentir como uma feiticeira (boa…) Coisa empolgante, isto de nos prepararmos para viver uma passagem mágica, um bom pedaço de mistério, e, por alguma razão, estas iminências dão-me para sorrir.

Nunca consegui ver o nascimento como um acto hospitalar; talvez por isso o doutor, após a observação protocolar, me tenha dito «pode ir para casa e voltar pela manhã. Com calma.» Algo lhe disse que não éramos daquele mundo, talvez.. «Ainda não está em trabalho de parto», declarou com toda a pertinência de quem sabe. «Não doutor que eu moro longe e de manhã há muito trânsito.»

A estranheza antiséptica  do quarto. O silêncio peculiar de um hospital em pleno funcionamento mas de noite, com todas as suas histórias.

Esforcei-me por encontrar um lugar, ali, ou por encontrar-me a mim, ou por posicionar-me algures no interior, onde, de alguma forma a ser inventada, pudesse ser eu a escolher como estar naquele processo, ou  não perder-me do meu centro. Talvez por ter escolhido esse lugar  interior as senhoras enfermeiras de obstetrícia continuaram a sustentar a tese de que a coisa não iria dar-se naquela noite, e, das três vezes que as chamámos para nos esclarecerem sobre os inequívocos, embora não evidentes à vista desarmada, avanços da nossa história, olhavam-me, avaliando o grau do meu suposto desconforto, e sentenciavam: «Ainda não está em trabalho de parto». E quando, já eu em plenas urgências de expulsão, uma delas, a mais graduada, se preparava para repetir a frase do momento e avaliar, enfastiada, o estado da arte, eis que mudou, num ápice a intenção do discurso, e, toda aflita, acometida de uma perplexidade temerosa, declarou solenemente: «vai parir minha senhora».

Pela primeira vez na vida fui empurrada numa cama com rodas, e, de ambos os lados da minha visão periférica, com olhos de criança, vi como os corredores do hospital deslizavam com uma eficiência ficcional.Tal como nas séries de TV. O gozo que me deu desinquietar toda aquela comitiva!

Eis-me a entrar num compartimento que mais parecia uma nave espacial. De alguma forma sentia-me noutro plano de realidade, onírico talvez, ou talvez tivesse entrado em sintonia, quem sabe, com algum asceta madrugador a meditar numa montanha nevada. O pai da menina estava  algures à minha direita, qual astronauta esverdeado, mascarado de cirurgião. Pisquei-lhe o olho não sei porquê.

O doutor era um distinto blackman, discreto e contido, provavelmente apanhado desprevenido com a minha nova aparição, desta feita sem vestido vermelho e sem meias com elástico rendado, mas com  o trabalhinho todo feito, sem gritos ou  protestos, sem administração de anestesia, e com o corpo todo dormente, obstinadamente inclinado para a esquerda, e uma nádega  que teimava em não assentar-se na mesa para nascer, a tremer com um frio incongruente, a sorrir como um menino e sem conseguir fazer a força.

De novo aquele instante suspenso. Lembro-me disso no nascimento de Gabriel, lá na ilha. Aquele momento em que nos sabemos a sós com um movimento Maior, e em que temos que nos dissolver Nele, que permitir qualquer coisa. Quatro horas, quarenta minutos. Fechei os olhos para mergulhar, soltei-me e dissolvi-me num brado de guerreira em cujo som não consegui reconhecer a minha voz. Assim apareceu uma princesa atlante. Uma pequena deusa gorda. Um cogumelo da primavera.


3 Respostas to “do aparecimento de uma princesa atlante”

  1. confirmadíssimo, eu (com a minha soberba barriga) estava lá na manhã seguinte, e vi a pequena Deusa essa linda menina (quase gémea do Sérgio ;)) chamada Clara.

  2. Reli.

  3. wowwwww… um dia destes, eu quero esse vestdo vermelho…. ja me tinhas prometido…

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