Carta para Gabriel

Lá estava o pequeno caderno. como que suspenso. Exactamente onde eu imaginei que estivesse. Afinal não foi triturado. Está precisamente no topo de uma pilha de livros. Apenas à espera de ser tocado, metido dentro de uma mala de manhã bem cedo, revisitado.

 

A tristeza cola-se a mim como óleo, como sumo de tangerinas.

Imiscui-se-me no cheiro como a estranheza de cidades desconhecidas.

 

Dorme-se em paz.

É-se pequeno.

O amor inquieta.

 

 

 

 

 

CARTA A GAB, escrita ao longo do Inverno/Primavera de 2002, após viagem com ele aos Estados Unidos no final de Janeiro do mesmo ano.

Registo-a pelo interesse que um dia nos há-de suscitar. O excitante interesse, o peculiar interesse das memórias.

 

 

 

Querido Gabriel,

 

Porque não temos nós coragem para nos abraçarmos? Porque rejeitas, dessa tua forma  tão própria,  viver comigo em minha casa e usufruires ou sofreres a tua loucura tal como usufruo e sofro com a minha?

Ou será apenas que tu, esse meu filho nascido numa montanha, continuas  a viver este momento já tão prolongado para me obrigares a ir tão fundo quanto consiga dentro dos meus abismos infinitos?

Os meus sentimentos entrechocam-se. Deformam e deformam-se. Sucedem-se impiedosamente e assim sou feliz sou infeliz sou jovem sou velha sou fácil sou difícil. Sobretudo difícil.  Hoje passeei nos campos que rodeiam a casa da Maria, para lá de santarém, dormi na cama dela, comi na mesa dela, e tudo  isso foi intenso. Folheei belos livros, conversei, ri, fiz amor comprei blusas às flores, mastiguei o ar frio, deliciei-me com o cheiro da lenha a arder, com as formas surpreendentes com que a luz límpida  se acomoda nos recantos dessa casa tão amada. Mas dê eu as voltas que der, tu estás lá sempre, o espaço é quase todo engolido por ti, por esta dôr de não conseguir estar contigo neste  momento tão importante da tua vida. Surgem-me, como nesses sonhos brutais pela sua precisão e pela tenacidade com que habitam a  memória, a tua imagem deitado na cama do hospital, as tuas palavras ásperas, o teu ostentado desprezo por tudo, a nossa viagem aos Estados Unidos, tão longe, os dias passados na casa do teu pai, dedicados a ti, o frio brutal nas mãos e na cara, o nosso regresso, o teu espanto entrecortado por um desdém mal encenado, Nova Iorque gélida e brutal como tu finges ser, tu a deambulares pela estação de Port Authority a tentares cravar um cigarro, como se ali se deambulasse como fazes nas ruas dos bairos onde te sentes um rei…

E não é raiva. É uma coisa mais funda, comigo. É quase como se estivesse grávida de ti, como se precisasse de te deixar nascer outra vez para que possamos olharmo-nos de uma forma totalmente nova.

E tu nunca saberás como dói ter que te parir outra vez, sem saber se te irá acontecer alguma outra tragédia, sem saber onde vive essa coisa que me obriga a fazer-te uma mala com roupa porque quero que te vás embora, e a escrever-te uma mensagem miseravelmente seca.

Porque doutra forma tu continuarias viciado nessa crueldade de personagem, incharias cada vez mais no teu egoísmo estóico, minarias em cada comparência à mesa em que comemos o  que tento com a minha gaguez existencial cultivar em minha casa.

Coisas que parecem simples, sabes.

 

Às vezes fico a pensar que deveria ter ficado na América contigo apenas as horas necessárias para te entregar ao teu pai, agora que vejo em perspectiva toda a sequência da tua paranóia. E da paranóia em que se tornou o meu amor por ti.

 

Um sonho: tu aparecias, silencioso, sentado aos pés de um antecessor da minha linhagem paterna. Esse velho homem estava encolhido, esfomeado, frio e ressequido,  sentado, sem saber porquê, no topo de uma montanha (também tu nasceste na montanha. Talvez um dia possamos lá ir, juntos). E foste tu, Gab, silencioso e por razão nenhuma, que obrigaste esse velho triste a sair da sua letargia para o levares a revisitar a vida através dos elementos das vivências mais belas da tua infância, junto ao rio Homem na serra do Gerês: os sapos, as cobras de água, os peixes e as salamandras, as serpentes e as libelinhas, as pedras e a água ímpida. Como se trouxesses à vida uma parte de ti abandonada algures, prisioneira, à espera de ser resgatada. No meu sonho, via-te a amparar-lhe o corpo, os braços quase inertes, e a olhá.lo de soslaio como eu fiz contigo quando aprendias a andar. Depois, acendeste uma fogueira para que ele se aquecesse e descansasse. Lá, no caminho do rio. Tudo era silêncio, e eu só sabia o que sabia através dos sinais que, apesar de tudo, sei ler em ti, os mesmos que me ajudam  a inventar um amor de(formado) pela ausência e pelo absurdo.

 

Mas tu roubas o que não chegas a dar.  Apareces e desapareces. Sempre gostaste de truques de magia. Sempre te fascinou decompores personagens para te construíres enquanto personagem. Lembras-te de quando ficavas no teu quarto a imitar o Michael Jackson? E de quando trazias para casa navalhas de todos os tamanhos, e eu as escondia dentro da taça das amêndoas?

Como se tudo estivesse ligado, como se em cada acontecimento estivessem contidas as múltiplas possibilidades do seguinte, apareces-me agora com esta notícia de esfaqueamento a morder-me a noite.

Onde guardas tu a tua vida? Em que canto recôndito de ti arrumaste as memórias do que és?

Aí estás tu, com essa tua beleza de nuvem rápida, quieto, calado, preso ao teu corpo ameaçado, talvez imaginando as histórias de herói vadio que irás contar quando voltares para as ruas.

Não ficas surpreendido por me veres. Não vomitas nada que se assemelhe a um desabafo. Só no teu olhar consigo perceber a confusão. O abismo. A infância abalroada. O homem que não sabe como surgir.

Tronco nu. Cabelo entrançado. Um tubo no peito, outro num braço.  Poucos dias depois arrependo-me de não ter aparecido senão para saber se estavas livre de perigo, sem que me visses. Como se um tipo como tu alguma vez pudesse estar livre de perigo! Não queres admitir que isto foi um sinal, e muito menos que há qualquer coisa a aprender. Não queres aprender. Agora só queres exibir a ti mesmo esse vórtice da experiência do subúrbio. Uns vão presos. Outros quase morrem. Outros poderiam ir presos mas tiveram sorte. Ficam na retranca enquanto os dias engolem o medo. Tá-se bem, assim. A única coisa que percebeste, e bem, foi a sensação da morte. Deixar de respirar. Pedir ajuda. Correr.

Agora é-me difícil pensar em ti. Lembrar-me de ti.

Agora a música não me basta tanto quanto antes. A vida é-me demasiado forte e fico sem espaço senão para me ir aguentando.

Hoje fui à praia da Ursa. Lembras-te, antigamente tu e o teu irmão deixavam-me para trás e desciam o caminho íngreme e tortuoso como dois pequenos veados castanhos. Hoje, mais uma vez, trouxémos cá alguém. Um outro teu irmão que não conheces,  e que, num só dia, sem o saber, usou os teus dois chapéus. Também ele tem esse pendor irresistível por chapéus. Como o vosso pai, devo dizê-lo.  O mar domina tudo. Engoliu a areia, tal como essa rua sem saída, essa casa escura que agora dizes ser a tua, te engoliu a ti, e desta vez é que eu não posso procurar-te.

A minha vida está completamente em desordem, e eu sei que é de propósito para que me reinvente. A ser assim, nada me resta senão reverenciar-te a um nível perfeitamente novo para mim. Os mestres são implacáveis. Obrigam-nos ao que, sendo inevitável, no abstracto se nos afigura como uma proeza.

Uma vez foste levado pelo mar na praia do Guincho. Houve sempre alguma coisa que vos quis levar.  Eu, mãe, fico sempre em terra, ou talvez isso seja um mero ponto de vista. Somos livres de presumir que quem entra no mar sou mesmo eu.  Esta carta poderia nunca acabar. O meu pano de fundo és tu, ou melhor, aquilo que imagino como o meu fracasso contigo.

Outras pessoas dizem de mim que sou demasiado “transparente”, que gosto de ti como não gosto de ninguém. Quanto a isso…

Ontem foi-se embora o teu irmão Daniel. Um dos teus irmãos Daniel. O mais velho. O escandinavo. O de olhos verdes. Tem uma voz grave, baixa e penetrante, sedutora. É muito alto e bem parecido, dono de uma imponência que ele aprendeu a utilizar para proteger uma espécie de hipersensibilidade. Como tu fazes com a tua arrogância agressiva e desconfiada. Usa um cabelo de juba, desordenado, volumoso e fofo. Como se tivesse uma almofada de penas sobre a cabeça. O vento faz com que esta magnífica cabeleira mestiça oscile, o que lhe confere uma ingenuidade desconcertante.  Tem andado a viajar pela Europa com dois amigos, e de repente, depois de uma conversa que tive com a mãe dele, sentiu-se desafiado a vir conhecer os dois irmãos do sul. Um deles – adivinha quem – preferiu não perder tempo a conhecê-lo, e muito menos a dar-se a conhecer.

Penso em ti. Ainda não me é possível não acreditar que és um tipo extraordinário. E nisso estou como uma pena de pássaro a pairar no ar. Só isto.

Já não tenho pressa para tocar flauta. É quase como se isso se estivesse a transformar no meu passado, e essa minha paixão – ou a dor da minha não realização, ou talvez somente uma saudade absoluta do que realmente sou –  tornasse ainda mais pesada essa passagem: um medo de me libertar do que tenho sido e de transformar a visão que tenho de mim na própria obra por criar. Eu a própria arte?

Volto a sentar-me ao mesmo balcão triste onde todos os dias venho comer uma sopa enquanto na TV passam as notícias mais incongruentes. Volto a enfiar-me no carro e a fugir para estacionar numa pequena rua sem saída onde ainda se ouvem  pássaros. Pego na flauta e dói-me tocar. Dói-me não tocar. Dóem-me as verdades confessáveis que são minhas. Intransmissíveis como cancros.  Dóis-me tu.  Dói-me nós os dois dentro do avião. Nos comboios. Nas estações. Nas ruas. Nós os dois cheios de sede no comboio para Philadelphia. Lembras-te?  Fiquei sem saber como a nossa viagem te tocou. Deixei-te ir mais uma vez e estou demasiado perto de ti. Mas demasiado perto comparativamente com o quê?

A forma e a intensidade com que em certos momentos me sinto ligada a TUDO deixam-me electrizada,e, por mais que procurasse, saberia sempre que esse estado é o resultado rigoroso do amor e do sofrimento. 

Tens quase 16 anos, e eu não posso ir ter contigo, não posso organizar para ti uma festa de anos, como fiz o mês passado, quando o teu irmão fez 18 anos.

Possivelmente sentirás ciúmes. Ostracismo. Ou alimentarás rancor. Ou vitimizar-te-ás, ou então ficarás triste, ou, quem sabe, esquecer-te-ás ou fingirás que te esqueceste, ou que não isso não tem importância.

A Marta diz que se o teu coração não abrir vai ter que rachar. Senti isto como uma verdade absoluta. Curta mas brutal.

A faca que te entrou pelas costas adentro para dar cabo de ti marcou um novo tempo. Depois da América, cabe-te a criação do próximo capítulo. Já pensaste quantas vezes na vida temos oportunidades destas? Tu sabias que se de repente desatasses a falar comigo eu estaria ali. Incondicionalmente. Podias ter dito o que te viesse à cabeça. Absolutamente. Estávamos em viagem naquele país esmagador. Estava frio. Aquilo poderia ter sido para nós a terra de ninguém. Um belo sítio, uma beloa viagem para um reencontro. Afinal eu tinha ido até àquele fim do mundo para te mostrar que o mais importante é mesmo a tua vida. Vale sempre a pena atravessar um oceano quando se trata de proteger a vida de um filho. Já muitas vezes me arrependi de coisas boas que fiz. Para ti.  Foi o caso. Mas isso são as histórias de cada momento. São ondas que rebentam mas não são o mar. É raiva. Desespero. Ainda tenho loucura suficiente para acreditar que as sementes lançadas hão-de um dia desatar acrescer. Algures.

Dou comigo a ter saudades dos nossos verões no Rio Homem, das noites em que adormecíamos a ver um filme no video, mãe e filhos embrulhados em mantas, da forma como te desvairavas a correr rua abaixo e te lançavas nos meus braços, enfiado num bibe cor de laranja. De vocês os dois a brincarem em casa. Nessa altura eu andava sempre tão ocupada, sempre apaixonada por alguma coisa. E agora este deserto. Este tanto silêncio. Este tanto mergulhar. 

A minha infância foi estranha e intensa, e também a aminha juventude. Sabes, eu vivia, tinha de viver dentro de um mundo meu, muito secreto. A minha mãe não sorria, fizesse eu o que fizesse de “bom”.

E, no entanto, suspeito que tenha sido ela a transmitir-me a paixão pela música, nas horas em que cantava fados enquanto lavava a roupa no tanque do pátio. Depois mudámos de casa. Os prédios novos não tinham pátios. O meu pai terá comprado uma máquina de lavar roupa. Ela deixou de cantar. Eu tenho medo que o meu coração se encha de secura, como o dela por causa da solidão. Mas eu não estou só, Gabriel, eu sei. Mas às vezes é como se estivesse, tão fundas são as feridas, tão cortantes as dúvidas, tão difícil  gostar de mim. 

Agora que quero curar-me de tudo, a dor vem ao de cima: um barco apodrecido que um dia emerge. Os  destroços dançam sobre as ondas como clarões de histórias.

Não sei se tenho força para continuar a tocar. Nem sei se é para isso que vou reunir forças. Sei que tenho que fazer alguma coisa. Inventar uma forma de ritualizar  a vida, de trabalhá-la magicamente. Sempre soube disso e sempre tive que o fazer debaixo de fogo. Não sei donde venho e donde  me surges tu, mas continuo a ter fé no teu encontro contigo mesmo.

E como não sei tocar as coisas que escrevo, resta-me escrevê-las porque sinto que devem ser registadas. Um dia mais tarde veremos como passaram pelo filtro do tempo.

Hoje o vento está baço. Quantas semanas passaram desde a Pannsylvannia? Apenas duas. Apeteceu-me ter lá ficado, sabes?

Como diz o meu marido, a minha translucidez umas vezes confere-me força, outras cega-me, outra  estilhaça-me.  Ele vê isso à distância perturbadora do amor.

O dia está baço. Ou será essa a qualidade do vento?

 

Vento

Baço

A minha profissão a empurrar-me contra a parede, a esmagar-me o coração da vida. Não, não é uma brincadeira, Gab. O meu emprego é a facada nas minhas costas, e dói-me cada vez que respiro. Mas preciso de sentir esta dor para modificar  qualquer coisa como uma guerreira.

Contigo eu não fui a guerreira de que tu precisavas e tu procurarás os teus desafios nos guetos, na devassidão. A subir e a descer ruas. De bairro para bairro, na ilusão de que alguma coisa está a acontecer.  Será isso?

Às vezes parece-me ainda ver a neve à janela da casa do teu pai. Parece-me ainda lá estar. Lembras-te daquele frio triturante? De andares na rua completamente tolhido, porque embirraste que não querias enfiar-te num casaco? De saíres porta fora – como era teu costume – quando foste confrontado com o facto de me teres escondido o passaporte, que, segundo disseste, não me devolverias se não te garantisse que regressarias comigo? Foi mesmo a polícia que te interceptou, foste capturado pelo frio, ou foste esmagado por um medo súbito e feroz?

 

Naquele momento,aquela familiar dissolução: sou tudo e sinto tudo.

 

Sabes, nada me prende a este país. Rapidamente sairia daqui. Tu escolheste não existir na minha vida, o teu irmão provavelmente gostaria de conhecer outro país. Na verdade, apeteceu-me ficar nos States. Recomeçar tudo, enraizar-me através de pequenos gestos e hábitos, como tantas vezes já fiz.

Continuarei a perguntar-me afinal o que fomos fazer à América? Foi para que conseguisse deixar-te?  lá ou cá, que diferença faz, se de qualquer maneira tudo o que queres é dar seguimento à tua grande aventura?

 

A minha influência?… Eu, completamente desconjuntada, enfiada numa cadeira numa sala de cinema num sábado à noite, sózinha, imersa em dúvidas, com um cansaço novo a correr-me nas veias. A minha influência, frágil, forte, a influência que talvez nunca tenha existido.

 

O teu quarto continua abandonado, impregnado daquela energia fantasmagórica, Abro a janela para que receba luz e ar, mas o cheiro penetrante e fétido desse mundo onde escolheste viver instalou-se. Colou-se como um selo. Um cheiro a roupa suja, a adolescência viscosa, a suores em camadas, a tabaco , um travo a vinho barato, a restos de comida, a vómito azedo. A chulé.  Esse cheiro que apanhaste na rua e que não se te chega a colar, mas que permanece nas roupas e ondeia no ar, como uma eau de parfum  penetrante, evocativa.

 

Talvez desmonte a tua a cama. Talvez arranje coragem para Transformar aquilo num espaço onde apeteça estar. Porque o teu quarto vai-se transformando num fantasma, e se eu tenho que mudar alguma coisa em mim para integrar essa tua ausência, também a minha casa terá que mudar.  Talvez isso ajude a que te libertes, a que te encontres  mais depressa.

 

Fazes dezasseis anos dentro de 18 dias. Meu deus, o teu nascimento. Nasceste muito próximo do céu e do silêncio porque nasceste numa montanha. Nada de metáforas: é mesmo isso.

 

Nesse tempo vivíamos ao sol. Antes de nasceres, todas as manhãs passeávamos com o teu irmão. Num mundo de gente que estava de passagem e tinha como único objectivo desfrutar ao máximo, nós parecíamos ser os únicos que estavam ali de pedra e cal, com uma rotina que eu inventava sozinha, enquanto o teu pai se procurava numa constante e torrencial auto-expressão.

Nós lavávamos roupa nos tanques do parque de campismo, saíamos cedo enquanto toda a população de veraneantes ainda dormia, atravessávamos lentamente uma enorme planície de beringelas, e eu estendia uma manta onde o teu irmão brincava com alguns binquedos, conchas e pequenas pedras e pedaços de madeira.. Eu aproveitava para exercitar a minha respiração e trabalhava com o meu corpo, preparando-o para o teu nascimento. Exercia com plenitude o estado da solidão.

 

Regressávamos ao parque à hora a que acordam os jovens em férias, e íamos passando por grupos estemunhados, sem pressa, felizes ao sol. Apenas sentados, a comer ou a fumar a primeita joint. Éramos recebidos por sucessões de cheiros que se interpenetravam: a bacon frito, a café, a mar, a verão. O meu duplo estado de maternidade era-me suficiente. E o meu silêncio. E a tristeza, também. E tu empurravas a minha barriga, todos os dias, e eu sentia-a crescer. Sabia que havias de ser um homem.

Nós os três flutuávamos naquela irrealidade fantástica dos climas quentes. O teu irmão era um tipo forte e bem alimentado que dava nas vistas, com a sua beleza selvagem e as pontas do cabelo douradas por tanto sol. Frequentávamos uma pequena praia adjacente à da malta do camping. Incomodava-me o convívio permanente. Interrompia-me. Eu não estava ali para fumar joints, beber copos e estender o corpo ao sol. Não estava eufórica. Não tinha bilhete de ida e volta.

Os nossos dias eram recolhidos. Recolidos ao sol, se assim se pode dizer. Com banhos de mar. Eu e o teu irmão metíamo-nos no mar, ele com um par de braçadeiras amarelas, e eu na rectaguarda. O mar não lhe metia medo. Avançava em linha recta através da rebentação, absoluto e estóico. Os turistas na praia pediam-me para fotografá-lo, para ve-lo de perto. E tu gozavas esse sol, fazias caminhadas dentro do balão que a natureza me fez para ti. À noite deixava o teu irmão com o vosso pai e saía só, tal como fazia como quando estava grávida do dele. Vestia umas calças leves e um vestido comprido e ia tocar a minha música ou vender ramos de rosas a restaurantes groovy, como fazem os indianos nos bares das docas em Lisboa, com essa leveza triste do imigrado. Eu conheço essa estranha leveza. Sei como alguma coisa toma conta dos nómadas como nós fomos. Mas aquilo doía. Meu deus, aquilo era só nosso.

 

Até ao último momento pensei que irias nascer no parque de campismo de taurus, a sul da ilha de gran canaria. Na própria manhã em que comecei a sentir contracções fomos expulsos do parque. Não vi como as coisas aconteceram porque tudo se passou com o teu pai. Mas suspeito que a gerência tenha tido conhecimento da nossa intenção quanto ao parto. A partir daí,  não terá sido difícil chegar a um confronto. A arrogância do teu pai catalizava este tipo de confrontos. Ficámos, pois, com duas situações de emergência entre mãos. A mudança e o teu nascimento. A guardia civil meteu-se ao barulho para dar mais ênfase à ordem de saída. É que durante a nossa estadia nesse parque de campismo tinha lá morrido um espanhol da ilha, o peppe, gordo e simpático, sempre a passear-se entre o bar e a praia. Vivia numa carrinha com natalie, a namorada francesa.  Morreu de overdose. Sempre que nos cruzávamos baixava-se para saudar o teu irmão: “hola, mi niño, buenos dias, te vas a passear com mama?”.. Também esse casal parecia estar ali desde sempre. O mais provável é que ele fosse o fornecedor de drogas aos turistas de taurus, mas para disfarçar alugava um veleiro de dimensão média.  Eram nossos vizinhos e viviam numa carrinha citroen. Tinham sempre tempo e tinham sempre dinheiro. Nada parecia preocupá-los e dir-se-ia que pouco pediam da vida, desde que pudessem continuar a sentar-se interminavelmente ao sol, na esplanada da praia, a fumar cigarros com ou sem hashish, na companhia dos turistas que se revezavam na mesa ao longo do dia, entre banhos, refeições e cervejas.  No final da gravidez dei massagens a algumas pessoas para ganhar dinheiro. Uma delas foi natalie. Cabelo curto, magra, algo de decadente nela, algo de comparável a uma leveza excessiva nela, uma decadência jovem a passear-se entre a praia e o camping, fazia festas ao teu irmão como se ele fosse um gato, passeava-se com um andar negligente, como se pouco importasse caminhar no sentido em que caminhava ou noutra direcção qualquer. A meio da massagem desligou. A princípio pensei que dormitava. Mas rapidamente percebi que não podia ser só isso. Ela estava inerte, as pálpebras semicerradas, os olhos revirados para cima. Natalie! Natalie! Nada. Abanei-ª Nada. O coração a disparar. Por momentos achei que estaria morta. Que tinha morrido às minhas mãos. Os olhos verdes de Natalie, os pequenos caracóis de natalie, molhados, na praia. Um cigarro entre os dedos. Natalie a fazer amor com peppe dentro da carrinha. Não deram por mim. Ela deve ter-se esquecido que me tinha chamado. Aquela corpulência inchada de ócio e cerveja  em cima dela. Uma massa de corpo suado afocinhada no prazer. O ar abafado, não arejado da carrinha. Garrafas de cerveja, latas de cocacola, roupas em montes, cinzeiros. Natalie não deu por mim, naquele dia, debaixo de peppe (se ele soubesse que essa seria uma das últimas vezes que fazia amor…),nem deu por mim quando lhe sacudi o corpo a um dado momento da massagem. Natalie estava inconsciente. A massagem projectou-a directamente para um desmaio químico. Natalie também devia consumir o que quer que seja que matou peppe, por isso  flutuava sempre. Flutuava tanto que se sumiu pelos ares, puxada por um fio invisível preso aos olhos revirados.  Depois voltou a si, com aquela leveza semi-alheada que a caracterizava, pronta para um banho de mar e outro de sol.

 

Eu estava grávida de ti e não queria tocar mais em natalie. Não queria tocar em mais ninguém.

 

Também me ocorre que tudo tenha acontecido para que não nascesses ali. Provavelmente o teu nascimento ter-se-ia convertido na atracção do momento em taurus. Talvez por isso tudo se tenha precipitado.

 

 

Não poderíamos ficar em taurus nem mais um dia. Ficou decidido que iríamos para arteara, onde vivia  julia, uma italiana maravilhosa que me ensinou o negócio da venda de rosas nos restaurantes. Julia era pequena. Uma cabeleira abundamente emoldurava-lhe o rosto triangular e um olhar triste e cheio de ternura. Tinha uma filha com cerca de 6 anos, uma menina muito cativante, com uns olhos muito grandes e expressivos e duas tranças compridas , que seguia a mãe para todo o lado: a Clara. Julia vivia intermitentemente com o pai de clara, um alemão chamado Frank, que bebia muito, e frequentemente perdia a cabeça e lhe batia. O facto de sermos mães, de termos que sair para ganhar dinheiro com os turistas e de termos companheiros, no mínimo, controversos, fez com que nos tivéssemos aproximado muito. Julia ofereceu-nos a casa para tu nasceres. E que casa! O momento pedia que me transformasse numa  feiticeira.

 

E agora tu entras em nossa casa como um pequeno ladrão. Sem coragem. Enquanto eu estou a trabalhar. Hoje entraste, acendeste luzes, deixaste uma portada entreaberta. Tudo indica que tenhas estado a cortar o cabelo a alguém, ou alguém o teu, porque uma máquina de cortar cabelo estava ligada sobre a mesa do teu quarto. No fundo do teu bolso salvaguardas o direito ao teu lugar aqui. A tua chave de casa, que preservas como um bocado de ti que não queres perder. Então eu posso dizer que o meu filho passou em minha casa como um fugitivo. Um ladrão do seu próprio par de ténis.

 

E agora eu queria voltar a ouvir música. Música nova. Dir-se-ia que até o facto de ter deixado de ouvir música foi outro dos aspectos desta tão singular demarcação do passado.

 

 

Sinto o que poderia ter sido na música se a minha oportunidade tivesse sido essa. Assim, sou apenas um artista do seu próprio ser. Perco-me, reperco-me, metamorfoseio-me para encontrar o mesmo cheiro a sangue e a pedras molhadas. Há coisas que não mudam. As grandes paixões, a saudade que nos remete ao encantamento, à imaginação.

 

Quando eu me meti a estudar música na escola de jazz, lembras-te, tu tinhas ciúmes disso.

 

Compreendo. Eu era e sempre fui tão apaixonada pela música, que cheguei a acreditar que nesta vida teria tempo de aprender muitas coisas. E aprendi. Aprendi a tocar com outras pessoas, a orientar-me através de uma sequência harmónica e a improvisar sobre ela dentro dessa consciência, sem me perder. A primeira vez que descobri isso estávamos na matinha de Queluz. Como sempre, enchíamos o carro de miudagem, levávamos comida, uma bola, uma manta. Eu embrenhava-me nas partituras e estudava quanto podia enquanto vocês brincavam à sombra das árvores ou jogavam futebol na clareira.  O teu irmão sentava-se num tronco a esculpir bonecos nas bolotas com um pequeno canivete. Esculpia famílias inteiras.

 

Lembro-me de ficar em pé durante horas a concentrar-me na cifra. Sol maior, Si bemol de sétima, la menor, fa sustenido maior. O exercício consistia em desenhar melodias que se enquadrassem na sequência harmónica do “tune up”, de Miles Davis. Era importante que por “detrás” da melodia que surgisse eu continuasse a sentir o tema, a ouvi-lo em sub-texto. A estrutura tinha que estar sempre presente. Toda a liberdade de criação, no jazz, tem que estar imersa na estrutura. O tema é a corrente profunda do rio. A primeira vez que eu consegui sentir isto, que a coisa passou a fazere parte de mim para sempre, foi numa dessas tardes. Foi árduo e fantástico. E isso aconteceu durante as vossas brincadeiras. Aliás tudo o que me acontecia era perto de ti e do teu irmão.

 

Agora costumas visitá-lo na escola, quando menos se espera. Aposto que ele evita divulgar quem és porque provavelmente pareces um pequeno gangster. Talvez aquilo que vos liga, para além de tudo o que agora se vos afigura como “o passado”, seja a ganza.  Ganza em vigésima quinta mão. Ganza suja. Ganza surrada. Ganza enxovalhada. Ganza e solidão.

 

Ontem passaste por casa. Vieste buscar roupa. Porque não agarras tu num saco grande onde enfies toda a tua roupa? Porque razão fazes o possível por deixar aqui alguma coisa tua? Como sempre deixas aqui o cheiro a visco das paredes da casa que agora te acolhe, da gordura enegrecida do chão, da mistura indistinta de suores desenfreados. Mas a mais inesquecível das imagens é a do balde. Um grande balde que vive ao lado da cama dessa mulher que adoptaste como mãe. Um balde descolorado, semi-cheio de um líquido impreciso, acre, utensílio indispensável ao casal de alcoólicos que bebe na cama. Sempre à mão para cuspir-lhe mijar-lhe, vomitar-lhe. Aquela acidez enegrecida. Aquele abandono miserável.

 

Sempre que lá vou sinto uma total compreensão e uma absoluta incompreensão.  E, contudo, uma espécie de “proximidade”. Meu deus, tu vives ali, e tu vieste de mim. Por isso, eu também estou ali. Tu estares naquele lugar é a tua forma de comunicares comigo. Que me dizes? Alguma vez saberás?

 Estranho: ver-te sentado ao canto da sala no posto da GNR. Uma luz fluorescente a cair-te em cima. Looking for trouble. O medo precariamente disfarçado. Esse teu rosto tão susceptível, igual ao teu espírito, e eu sem poder ser carinhosa. Algo de semelhante acontece  com o teu irmão. Não é preciso estar ausente para não se estar presente. Chegámos ao silêncio, nós os três. Conhecemo-nos muito e amamo-nos muito, mas é como se tivéssemos chegado algures a um ponto de não retorno. E não depende só de mim quanto tempo vai durar esta parte do caminho. Agora sei que o meu amor, a minha fé e a minha loucura não têm poder. Existem na mesma medida em que existem os olhos e a boca, os cabelos e os dedos. E os dias.

 

São muitas as vezes em que sou atravessada por uma já familiar  sequência de sentimentos: insegurança, culpa, tristeza, perplexidade, medo. Talvez de estar a transformar-me numa pessoa pior.

 

Apareceram dois guardas no banco, à minha procura. Eu podia estar à espera de qualquer notícia. Que morreste. Que tiveste um acidente. Que roubaste. Fui-me habituando a receber notícias tuas das formas mais bizarras. Desta vez era uma nota falsa. Donde veio? Qual era o esquema? Foste enganado? O que o guarda me disse é que tu e outro tipo tinham ido comprar qualquer coisa a um quiosque com uma nota falsa de 50. Foi isso? Foi outra coisa qualquer? E que diferença faz? Acessos vedados. Perdi a password.

 

Nesse dia, não se se falhei uma oportunidade de ter mais uma conversa contigo, ou se me superei ao conseguir desaparecer sem tentar aproximar-me. Os esforços são sempre os meus. De repente fico cansada de passar a vida a descodificar os teus sinais, a tactear no escuro. A sofrer o que sofro e ainda a imaginar o que tu possas estar a sofrer, o que é profundamente injusto. Terreno lodoso. Fundo lento.  Aqui estava uma situação em que eu poderia testar a minha capacidade de desapego.

Depois das formalidades policiais – tive que assinar um documento na qualidade de tua mãe – enfiei-me no carro e vi-te caminhar sombrio e cabisbaixo rente aos prédios da praceta. Um matagal de cabelo a perfurar o boné. Não fiquei indiferente ao facto de, quando te foi pedida a morada, teres feito questão de dar os elementos da tua nova residência “habitual”, onde, com essa obstinação irreal, decidiste viver. Mas então porque raio não mandaste chamar essa mãe patética que agora adoptaste? Pois é, convém não esquecer que nestes momentos uma mãe rápida e apresentável vem sempre a calhar. Pelo menos podes semi-rir-te para os agentes porque não lhes apresentaste a mãe previsível.  É com esta raiva, com esta incompreensão devoradora  que zarpo para trás, mando atestar o depósito do carro, faço umas compras. Não sei em que interstícios das minhas células guardo estas coisas. Nem em que substância as transformo. Às vezes fico com medo de perder alguma coisa. Que se me quebrem encantos. Uma vez disseram-me que se tenho esse medo  isso significa que nada irei perder.

A minha opinião sobre ti, os meus sentimentos para contigo não estão acabados  Por vezes parecem interrompidos. Difíceis de colar à pele. Factores Sublinham a sangue a minha singularidade. Amo-te como?

A nossa viagem à América assalta-me como flashes de sonhos perturbadores. As sensações sobem como vómitos. Viajar contigo foi como carregar um bloco de pedra gigantesco sobre as costas.  Uma intensidade e um silêncio irrepetíveis. Ir ao cinema e estar no interior do filme. Ser o filme. Ser os lugares do filme. Como um sonho que um dia tive. Em simultâneo, compunha, executava e dançava a minha música.

 

Agora vejo-te, sentado a um canto do pequeno cubículo das instalações da polícia. Olhos baixos. Pele tisnada das ruas. Um bigodinho imberbe que te salta do rosto. Afinal quem és tu, a quem eu devo esta aceitação amorosa? E quem esse outro meu filho a quem devo toda esta paciência?

 

Talvez devesse ter parado mais por vós. Mas não. Estávamos sempre juntos. Íamos a sítios fantásticos: a concertos, a exposições, a passeios ao ar livre, a casa de amigos, a colónias de férias, a ensaios, a jantares. Muitas vezes ficávamos em casa, enroscados no sofá, e víamos filmes. A minha ideia era que essa forma de partilharmos a vida  seria a fórmula para uma espécie de harmonia inextinguível. Deixei-vos crescer sem grandes contrariedades, e eis o que agora se me depara. O contraponto da inocência. O “mal”.

 

Estamos em Março. Fazes anos dentro de uma semana. Não vou ter contigo. Não posso desmantelar a minha firmeza e com isso atrasar-te a ti.

Há uma tristeza instalada que não me abandona. Nos momentos em que se torna aguda, tenho dificuldade em gostar de mim. Em recolocar a música na minha vida, agora que sou levada a pensar que foi a música que me resgatou do rigor que poderia ter tido como mãe.

 

Está a chover. Pelo menos a chuva manter-te-á quieto. Ou talvez não. No sotão da tua nova casa. Da tua nova mãe. Deve ser escuro, imagino. E isso faz-me lembrar um quarto onde dormimos num “compound”, em Banjul, na Gâmbia.  Nunca me atrevi a arredar a cama, que estava encostada à parede. Tinha medo. Muito medo. O quarto era escuro e minúsculo. Sem janelas. Por isso deambulávamos pela cidade durante o dia. Considerava mais seguro deixar-te dormir na areia da praia do que na cama que nos albergava à noite, sob aquele calor impiedoso, propício à exuberância de todo o tipo de bicharada.  Uma vez apercebi-me de uma aranha corpulenta que subia tranquilamente a parede adjacente à cama. Noutra ocasião, em Casamance, Djibelor, ao sul do Senegal, enquanto te amamentava vi uma cobra que se deslocava junto ao tecto. O teu pai perseguiu-a com uma enxada e um ancinho. Fugiu. Conseguiu esgueirar-se para um armazém de ferramentas e utensílios da quinta onde então nos encontrávamos. Matou-a Mas quantas mais poderiam aparecer naquela casa desprotegida? A Casamance era uma imensa floresta rasgada por arrozais dispersos e salpicada por pequenas aldeias. Djibelor era uma dessas aldeias. 

 

Estiveste sempre muito próximo do perigo. Mas agora és tu que procuras o perigo.

 

Em Banjul percorreste quilómetros de ruas poeirentas sentado às minhas costas, como as crianças africanas. Eu mastigava amendoins frescos e dava-tos na boca. Tu tinhas a tua forma de me pedir mais: na tua urgência por esse alimento, agitavas o teu corpo de bébé contra as minhas costas, como quem fustiga um cavalo para o galope.

 

São coisas que estão escritas em ti. Coisas em que se acredita.

 

O teu irmão, dois anos mais veolho, cansava-se de caminhar pela minha mão. Ainda queria colo. Em África não tínhamos carrinho de passeio. Ninguém tinha. Em África nós não tínhamos uma data de coisas.

 

Hoje eu não teria ido para África. Não daquela maneira. Não teria a coragem. Não reconheceria o propósito.

 

No entanto, sei que nunca teria estado tanto tempo convosco como em África. Naqueles dois anos.

 

Vivemos ao sol. Estivémos em praias tão belas que doía. Éramos sempre só os três. Nos primeiros tempos ficaste muito fraco com a mudança de clima e de alimentação. O teu irmão ainda pior: já com dois anos, tinha as suas rotinas e aquilo foi como uma traição da vida. Ele não quis aceitar. Odiava a comida. Odiava o calor pegajoso, a ausência do mar. Ficou profundamente infeliz.

 

Se eu pudesse apagar alguma coisa das nossas vidas seria esse tempo de privação e fragilidade que se abateu sobre nós quando chegámos  a África.

 

Hoje, 18 de Março, fazes 16 anos. Apareceste em casa há dois dias. Numa visita relâmpago, agarras o que precisas. O BI, uma T-shirt, uma fotografia. Ficas nervoso, e escondes esse facto com a tua suposta pressa. Mentiste mais uma vez sobre a chave de casa, da qual não queres abrir mão. Dir-se-ia que a chave da casa é a única coisa que te prova, ainda, que alguma coisa, aqui,te pertence. Inventaste sinais, códigos e atribuite-lhes significados,  graus de importância. Por complexos que possam ser, não são impossíveis de descodificar. Não para mim. E, no entanto, esse alegado conhecimento em nada nos é útil. Cortaste a juba. Ficas mais leve. Deste a entender que tens alguma coisa em vistas, um curso, parece, com o centro de emprego. Se manifesto interesse pela tua vida, fechas o jogo. Se não o faço, luto comigo. Talvez seja necessário que te confrontes com  o facto de eu não querer saber.

 

Coincidência. Fomos jantar fora no dia dos teus anos. Disputou-se uma partida de bilhar. Coisa calada, aquele cansaço do final do inverno. Enfim, comemorou-se o teu aniversário sem premeditação, sem se falar de ti. Sem ti. Tudo convergiu para que tivéssemos decidido ir jantar fora precisamente naquele dia. Estas coisas que se fazem sem pensar, mas que depois assumem um simbolismo e uma ligação tão evidentes. A vida é mesmo fodida. E mais: o teu pai ligou nesse dia. Coincidência ainda mais incrível, porque ele não sabe os aniversários dos filhos. Mas acertou. Desejou-te um feliz aniversário. O teu avô disse-me que tu havias de voltar. Que demorarias, mas havias de voltar.

 

Às vezes instala-se um espaço em branco. Fico em ponto morto. Não consigo escrever, distancio-me da proximidade de ti. Ou talvez seja exactamente o inverso. Não consigo distanciar-me. Passo vários dias assim. Tampouco apareces. Nem para te deixares ver nem para entrares à socapa, trocares de ténis e pegares numa t-shirt lavada, deixando, diluídos no cesto da roupa suja, um par de ténis nauseabundos e duas ou três peças de roupa. Como às vezes fazes. Como se roubasses a ti mesmo.

Ao procurar um par de brincos,encontrei aquele teu anel dourado que tem três brilhantes – o que um dia me ofereceste. Coloqueio-o no  meu médio esquerdo, tentando captar alguma sensação que me proporcionasse um conhecimento directo do teu mundo.  Um pechisbeque de peso. A idiossincrasia do teu fascínio por jóias. Tique de gangster.

 

Tu foste, és e serás sempre o efeito de uma sucessão ininterrupta de escolhas, de histórias, de actos, de imponderáveis, lógicos ou ilógicos, óbvios ou subtis. Tens um poder apreciável sobre a tua própria vida. Um dia saberás isto de uma forma palpável. Talvez dolorosa. Um (belo)dia  hás-de amadurecer e debruçar-te, perplexo, sobre a paisagem perturbadora da tua vida. Hás-de compreender e amar o absurdo. Isto, por exemplo: Digamos que tu querias mesmo nascer. E que eu queria mesmo que tu nascesses. Uma vontade íntegra, que me subia como um jacto de petrópelo através de uma veia abrupta cavada na terra. Entre mim e o teu pai não existia nada de celebrável. E muito menos através do nascimento de um filho. Mas digamos que tu querias nascer como filho desse pai, e que alguma coisa em mim pedia que tu nascesses com ele como teu pai. Eu já era uma mãe solitária. Uma jovem mãe que quis repetir a façanha. Que fantástico vazio existia em mim naquele tempo. Que impossível fé. Essa espécie de inocência que tanto tem  perdurado e que a vida tão sabiamente dissipa. Todos esses elementos que não encaixam e se impõem. Como chuva. Como calor. Como fome. Como sonhos. Portanto é como se tu tivesses aparecido porque o universo precisou de ti, assim como precisou de mim, e de cada pedra e de cada partícula de pó e de cada morte.

Ainda falo sobre o possível dom de amar o absurdo.

Lembras-te de quando vos levava ao cinema e nos sentávamos à espera que o filme começasse? Nessa altura dizia-vos “pronto, já estamos no cinema. Agora vamos ficar aqui duas horas com estas pessoas todas, a ouvir esta música. Isto é que é o cinema.”  À vossa inocência sobrepunha-se a certeza de que o cinema não podia ser apenas aquilo, e então surgia o exercício do auto-domínio, da contenção. Rasgavam-se sorrisos a um tempo protestadores, nervosos, fascinados. Os vossos olhos expressavam uma dúvida ansiosa, mas sorridente, como se com esse sorriso pretendessem captar outro sorriso – o meu – que vos confirmasse a suspeita de que tudo aquilo era uma brincadeira.  Mas a vossa sabedoria inata obrigava-vos a permanecer sentados, à espera do momento mágico em que as luzes se apagariam.

 

Neste momento também estou à espera que se apaguem as luzes.

 

Não sei que novo espaço se cavou em mim para isto caber.

Anúncios

Uma resposta to “Carta para Gabriel”

  1. Em cada momento da tua escrita, em cada recanto desta “carta” me lembrava da minha Silvia… Não foi no texto em si que a encontrei… Foi na forma de amar, foi nas entrelinhas, foi na tua força brutal de mulher e de mãe, foi no sofrimento e na coragem…(Estou a escrever isto e estou a chorar!) Não foi por acaso q nos encontrámos. Amo-te minha amiga, tanto como se duma irmã te tratasses. Obrigada!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: