história intocada (o aeroporto da partida)

A história passou-se em dois aeroportos: o da partida e o da chegada, e num avião;

O aeroporto da partida

Puerto Rosário, Fuerteventura

Queria ter chegado cedo. A ideia era conseguir um lugar à janela, na coxia esquerda, um lugar que não ficasse sobre a asa, para poder despedir-me do norte da ilha, e ver surgir Lanzarote. Com sorte, se o vento soprasse do poente, quem sabe poderia avistar lá em baixo, como um mapa em tons de pastel, a bela Graciosa com seus dois vulcões, toda espraiada, e o canal hiper-azul que a separa de Lanzarote.

E sim, chegou-se cedo, mas era domingo na ilha, domingo de Setembro, domingo de fim de viagem, e os dois balcões de checkin para o voo Iberia para Madrid já tinham filas longas. «Nem vale a pena pedir aquele lugar que eu tanto queria». «Claro que vale a pena.», contrapõe, resoluta,  Maria, a minha anfitriã atlântica. «Também há gente que odeia voar à janela!» Não fõra o desabafo e aquilo que de seguida me foi dito, o pedido de um lugar à janela, na coxia esquerda e que não fosse sobre a asa jamais teria sido formulado. Mas sim. Foi formulado. E concretizado esse preciso desejo. Plaza: 12 A: janela, lado esquerdo e sem asa pela frente. Ah Maria que história me arranjaste tu…

Cruzámo-nos várias vezes, eu e esse homem que tocou e foi tocado, nas deambulações entre a fila de checkin, o bar, as casas de banho, o balcão do rent-a-car. Sim, reparei. Penso que desde logo reparámos os dois. No aeroporto de Puerto Rosário todos os que partem vão bronzeados. Por isso não vale a pela mencionar que aquele homem trazia boas cores. Mas sim, trazia-as. Teria ele um ar casmurro, ou conturbado, ou rebelde, ou tenuemente arrogante? Tudo isso teria, mas, em todo o caso um olhar que incomodou. Levemente. Não o suficiente, contudo, para condicionar os meus movimentos, os meus gestos, ou para tentar, sequer, seguir-lhe os movimentos, o que, desconcertantemente, de modo algum seria necessário, pois dir-se-ia que o via em todos os lugares, olhando-me desassombradamente, quase inexpressivamente. Ele sim, ter-me-ia porventura tomado como objecto da sua observação. Estas coisas acontecem nos lugares onde somos forçados a esperar. Seguimos um determinado movimento, algo que intriga, ou que fascina, algo de horrível, qualquer coisa observamos, nos comportamentos humanos, ma maneira como as coisas funcionam, porventura sem curiosidade, sequer, mas mesmo assim observamos, desde um lugar interior de silêncio e de um vazio transitório, quantas vezes sem qualquer entusiasmo. No entanto, consigo imaginar que esse homem me teria observado com interesse, já que me falou da impressão que lhe causou a forma como me despedi das minhas amigas, ou melhor, a forma como elas se despediram de mim, como chegou a escrever.

Estava ele acompanhado de uma família com uma mãe, uma mulher, duas crianças. Imaginei que a expressão levemente carrancuda, ou conturbada, ou arrogante pudesse prender-se com esse facto. As famílias podem ser o maior dos infernos ou a melhor das venturas… Mas reparei, sim, reparei. Quem sabe tenha reparado nma certa inquietude, numa certa conturbação silenciosa, num certo vestígio de arrogância na forma como me olhava, talvez o estado-ilha em que me encontrava me tivesse deixado receptiva ao que esse homem emanava – um misto de desencanto, de vulnerabilidade e de dureza.

Alguma coisa nos levou a cruzarmo-nos repetidas vezes, e em todas essas vezes nos olhámos. Não sei como o olhei. Provavelmente olhei nele sempre a direito. Provavelmente sem medo. Sem jogo. Sem alvo. Aquela coisa inexplicável dos instantes.

Convergimos de novo nas passadeiras de raio X por onde têm que passar as bagagens de mão. Ambos trazíamos computadores. Nessa altura sim, vi-me um pouco dentro de uma história que não estava a ser contada por mim. Ali estava de novo, quase demasiadamente próximo, aquele impertinente bronzeado de olhar quase triste, com toda a sua família… Aí sim senti-me fixada, contemplada. Perplexa sobretudo, tendo em conta que esse estranho de belos braços bronzeados,  de t-shirt preta,  estava inequivocamente imerso numa aprazível família de cinco elementos e três gerações.

Sei que se estivesse só me teria incomodado de outra maneira. Que me teria permitido seguir o impulso da curiosidade, o rasto daquela estranha atracção. Mas não. Apenas registei. Lembro-me de abrirmos em simultâneo as malas dos computadores. De os recolocarmos nas malas também em simultâneo. Lembro-me de estar agachada a repôr na mala de mão a câmara e o computador e de, ao levantar a cabeça, me deparar com ele, de pé, sobrevoando-me. Eu não sabia ainda, mas a história já estava a acontecer. A sala de embarque ficava no piso superior. Um mar de gente. De novo uma longa fila de passageiros para a entrada no voo Iberia da tarde para Madrid. Sentei-me, à espera. Que belos dias passara nessa ilha habitada por trechos de desertos… que leve fora a minha passagem por aquele lugar… Ao aproximar-me, por fim, do corredor cuja extremidade desembocava na porta do avião, perguntei-me, por momentos, se o engenho não iria demasiadamente carregado de gente e de bagagens. Em paralelo, pensei que esse seria o último instante em que estaria a respirar o ar morno e doce das ilhas. Sabia que haveria de voltar. Brevemente haveria de voltar.

Um dois passos, e, de repente, o ar condicionado. Filas e filas de assentos. Muita gente. A azáfama do voo, da arrumação das bagagens de mão. No cartão de embarque lia-se: Plaza 12-A. Felizmente não seria necessário atravessar o estreito corredor até à cauda do avião. 12-A. O assento A, visto que estava a percorrer o avião da frente para trás, ficava à minha direita. Ia avançando, com uma mala em cada ombro, devagar, muito devagar sobre um mar de cabeças enfileiradas, de rostos bronzeados perfeitamente alinhados três a três, enquanto, ao longe dentro de mim, escutava vozes. Muitas vozes.

Lá estava o meu estranho de T shirt preta e olhar intenso, quase insolente, com toda a sua família que ocupava uma coxia inteira, à excepção de um lugar, visto que eram cinco. Olhei, alternada e repetidamente, o que estava escrito no cartão de embarque e a sequência de números das coxias, enquanto desacelerava ainda mais o meu já lento caminhar, como se uma parte de mim se obstinasse em fazer o percurso no sentido inverso, de volta à mornidão do ar marítimo das ilhas, de volta aos seus espaços poderosos, aos seus montes áridos e eternos. Ali estava de novo esse estranho estranho que tão estranhamente se fixou em mim desde que entrei no aeroporto da partida. Coxia 12. Se o avião estivesse vazio eu ter-me-ia sentado noutro lugar. Mas não. O avião estava cheio e ali estava o arrogante basco,  sentado na coxia 12 lugar B, ao lado da mãe, separado por esta e pelo corredor da mulher e das crianças, e sim, o lugar A era o que estava, ainda, vazio, e eu a última peça daquele bizarro puzzle, a última personagem de uma história que não estava a ser contada por mim. Por um momento senti que Javier relampejava. Que é preciso ter-se cuidado com a formulação dos desejos. Que talvez o pensamento seja mágico. E perguntei-me que parte de mim me terá levado, tão cega ou tão certeira, àquele preciso lugar.

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