encruzilhada de um velho girassol marítimo

Ele sabia. Já tinha ouvido dizer. Aos 85 já tinha lido, ouvido, constatado.

Que os ossos mirram. Que os dentes vão estalando e podem desprender-se com o tempo. Que o sangue tem tendência a engrossar nas veias. Que a tensão arterial é uma bomba relógio. Que as gengivas amolecem. Os músculos também. Que os cabelos se tornam grisalhos. Que a pele se encolhe e seca e se mancha à medida que os anos vão passando. Que a paciência é exercida entre limites cada vez mais estreitos. Que podem surgir longas insónias solitárias, que os rins se entorpecem, que as pausas hormonais podem tornar-se depressivas e provocam distúrbios diversos, que a visão ao perto fica comprometida e que a visão ao longe se confunde, que as articulações se desgastam e fazem doer, que a resistência se esvai, que chegará o dia em que será formalmente proibido de conduzir o seu próprio automóvel. Na verdade já lhe pesa conduzi-lo à noite. A iluminação exterior encandeia-o. Enerva-o.

Sim ele sabia que a Organização Mundial de Saúde recomenda os check-ups periódicos, as densiometrias ósseas, as ecografias pélvicas, abdominais, torácicas, as análises exaustivas a todos os parâmetros dos seus fluidos vitais. Sabia o quanto eles garantem que a sua condição se traduza em pesos e medidas que digam tudo sobre si, que determinem se e até que ponto poderá pensar-se como um ser com vida útil. Ainda com vida útil.

De vez em quando sentia-se mal, e esse era o grande mistério. Não se tratava de um mal estar localizado, identificável, específico. Não era o coração ou a cabeça ou um órgão em concreto que o atormentavam mas uma mistura de tudo isso, ou talvez um movimento difuso, doloroso e imobilizador dentro de si, algo que o deixava atravessado a meio caminho. Avisos, talvez..

Nunca foi um tipo virado para as doenças, e nem sequer padecia dos males colectivos – hipertensão, colesterol a roçar os níveis de alerta – que já atormentam um número considerável de cidadãos com metade da sua idade. Quando se sentia mal era como se estivesse a aprender a render-se, e sim, falava na morte, mas ninguém aceitava falar sobe a morte com um ancião. Neste ponto, a conversa era inabilmente desviada por uma desonestidade quase desvelada, e entravam, invariavelmente, os lugares comuns. Ah sim, claro que há-de morrer, e também eu, que disparate estar agora com essa conversa… Mas a verdade é que essa maneira de se deixar o tema de fora não era mais que uma espécie de fuga pretensamente leve e, vistas bem as coisas, uma falta de disponibilidade e de coragem para partilhar aquela faceta do pensamento do velho lobo do mar. E com um «lá está ele» meio paternalista arrumava-se de vez a inquietação. Não, ele nem sequer era caquético. Era lento como sempre foi, talvez um tanto mais. Distraído como sempre foi, talvez um tanto mais. Pergunta-se: um tipo com 85 anos tem ou não o direito o dever e a autoridade de pensar na sua própria morte? O direito o dever e a autoridade de referir, nas suas conversas, que sabe que vai morrer. Que há-de morrer, segundo a ordem natural das coisas e os dados estatísticos, com uma relativa brevidade.. Percebia-se que falava nisso por uma necessidade de afirmar e integrar essa inevitabilidade. Esse abismo. Como cantar para seu mal espantar. Alguns pensadores mencionam a omissão da ideia da morte como uma lacuna que empresta à existência a dimensão da mediocridade e lhe subtrai a paixão e a magia, e muito haveria a dizer, e já foi dito, sobre isso.

Pois bem, o velho lobo do mar sentia-se mal, e lá ia, inconformado, ao médico, para ouvir um veredicto, medir as funções vitais e a espessura do sangue, vasculhar os órgãos. Comparecia, quase obediente,  a todos esses actos de escatologia mas algo, nele, uma consciência, uma entidade que o remetia para outros nomes feitos de silêncio, sabia que, qualquer que fosse o diagnóstico, o que se passava dentro de si jamais deixaria de ser vivido como um grande mistério, e que,  ainda que os valores em que se baseasse a sentença apresentassem uma conformidade rigorosa com a os níveis desejáveis, o mistério haveria de permanecer intacto.

Ora o nosso ancião de espírito rebelde nunca se deixou enredar nas tramas das grandes religiões, nunca se agradou com a ideia de um deus omnipotente, o que não queria dizer que não pudesse, agora, estar a meio caminho de cair no outro extremo, permitindo-se acreditar piamente, sem margem para outros movimentos, nos dados irrefutáveis produzidos pela ciência médica. Porém, por muitos comprimidos que ingerisse sabia, lá no fundo, que a sua inquietude jamais seria apaziguada, pois a sua história era a de um nómada.

Onde e em que momento um homem  cessa de se ver como uma peça única, bela, a pouco e pouco esculpida pela sua existência? Até que ponto deixa um homem de se ver como uma história empolgante, da qual é co-autor, para começar a aceitar pesos e medidas estanques que enquadram numa normalidade ficcional a substância que é a sua? A sua substância dotada de uma medida única – a sua justa medida – de uma história irrepetível, de um percurso só seu?

Se reconhecemos a beleza de um girassol seco e recurvado no término de um ciclo em que acompanhou incessantemente um sol em movimento pelo céu, como nos permitimos, pelo caminho, cegar à nossa própria beleza cravejada de histórias, polvilhada de compaixão e generosidade?

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3 Respostas to “encruzilhada de um velho girassol marítimo”

  1. Na pre historia o homem queria ter a sua paixao por perto. A distancia de uma pedrada. Hoje ja se da por feliz a distancia de um telefonema. Se bem que confortavel mesmo e mais perto que isso. Keyboard distance’s fine. Mas nao deixa de haver valentes pedradas por causa da paixao. Este teu texto atingiu-me mais violentamente do que podes imaginar.Por varios motivos. E um deles e estar apaixonado incontornavelmente pela tua forma de dizer. Tirei algumas notas. Inspiradoras.

  2. E e’ mesmo um grande prazer acompanhar esse teu respeito doce e compreensao com que salvaguardas, sempre, os instintos mais primarios do Ser. Grosso modo Sensibilidade. Afinal e’ mesmo possivel encontrar encanto e beleza onde ela nao existe ja

  3. Queres saber o que acho… a questão da ressonância prende-se, simplesmente, com o porquê de escrever. Tu escreves porquÊ? Eu escrevo porquê? Depois, como o como anda de mão dada com o porquê, as palavras que surgem são empurradas para fora de uma certa maneira, como se nos debruçássemos de uma janela com vista, ou nos assomássemos a um miradouro por vezes alucinante, por vezes belo, por vezes terrível. A escrita serve para não nos esquecermos do espanto, talvez. Mesmo quando o que vemos é a paisagem do desencanto.Pode conter – ou não – uma assinatura, uma história, dedos que tocam, vozes, ou então pode ser um exercício de perfeição que não faz estremecer. Obrigada por me falares da ressonância das palavras que me habitam e que eu não possuo.

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