viagem no tempo à hora de um café pela manhã

Nunca tinha estado naquela esplanada numa manhã de sol, e, definitivamente, valia a pena. Da outra vez também tinha valido a pena, mas fora de tarde e era Inverno, e, no Inverno, os céus de Sintra são quase sempre nublados.

No entanto, não era nada disso que trazia no pensamento naquela manhã quando desci os dois ou três degraus de pedra da área interior do café para a esplanada.

As minhas incursões no passado e no futuro vão-se tornando mais escassas, ou pelo menos, mais desapegadas e, ao mesmo tempo, mais abrangentes ou talvez contemplativas, já que, cada vez mais e sem saber ao certo porquê, me vejo imersa no presente. Talvez seja justamente este mergulho no presente que me leva a integrar o passado de uma maneira mais leve e mais distanciada, e a tomar consciência de que não faz sentido tomar o futuro como matéria da minha ocupação.

Ainda assim, o facto de me ter sentado ali, justamente ali nessa manhã fresca de um domingo, sendo que entre estas duas vezes mais nenhuma aconteceu, trouxe, inevitavelmente, o episódio de uma certa tarde de Inverno, no dia de S. Valentim em 2006, terça feira. Sei que era uma terça feira porque aquele colectivo de juízes, composto por um juiz presidente e dois juízes «asa», neste caso duas mulheres, uma ruiva outra morena, só julgam nesse dia no tribunal de Sintra.

Seríamos, talvez, umas dez pessoas, para mais e não para menos, sentadas à volta de uma mesa única formada pela junção das várias que ali se encontravam, já que a esplanada estava literalmente vazia quando chegámos. Do cenário verdejante separava-nos uma espécie de tenda de lona plastificada de cor branca, daquelas que costumam ser utilizadas nos banquetes em jardins, com janelas de plástico transparente que permitiam, ainda assim, sentir o lugar.

Sim, era Fevereiro e devia estar frio, mas nesse dia o meu corpo adquirira uma leveza quase irreal, uma espécie de imunidade emocional aos elementos do clima. O que se passou naquela tarde foi um lanche de celebração e de agradecimento a todas as pessoas que acompanharam, de alguma forma, no terreno e à distância, a história de Gabriel no período em que esteve preso e que compareceram, nesse dia, à leitura da sentença de um julgamento iniciado no equinócio do Outono de 2005.

O que se celebrou naquele lugar com galões quentes, torradas em pão rústico e fatias de bolo de chocolate foi a libertação de Gabriel. Sem Gabriel, que regressara à prisão para se despedir dos companheiros de cela, arrebanhar os seus pertences e formalizar os aspectos processuais.

E de tal forma o lanche foi caloroso e reconfortante, que o final de tarda rapidamente se transpôs em noite, e, quando finalmente se foi buscar Gabriel já fazia um frio dos diabos. O curioso é que, tendo sido ele e o seu estranho percurso o pretexto quase único daquela inusitada reunião de amigos – pessoas que, conhecendo, através de mim, histórias umas das outras, raramente se cruzavam – foi ele, também, que acabou por ficar um bom bocado ao frio, à espera de uma boleia para longe do velho reduto norte da prisão de Caxias.

E se é verdade que nada acontece por acaso, certamente que esse momento em que saiu da reclusão pelo seu próprio pé, só e desalgemado, para a noite fria e prematura de Fevereiro, com uma televisão e um daqueles sacos de plástico pretos, de cem litros, que se usam para os lixos domésticos, cheio de peças de roupa transaccionadas nesse mercado paralelo onde cada objecto adquire preços incompreensíveis para o comum dos mortais, terá sido de capital importância para o seu quinhão de memórias desta vida.

Ali permaneceu Gabriel durante um tempo indeterminado. Nem ele próprio saberá dizer qual terá sido a duração da longa espera, já que o processo de libertação foi, segundo diz, muito rápido. Lida a sentença, o tribunal comunica à cadeia, via fax, as identidades dos indivíduos a libertar e, depois, imagino, tanto guardas como escriturários, desejosos, também eles, de libertação, enxotam os libertados de um lado para o outro, como ratos, até os expulsarem dos seus lúgubres domínios com o mesmo desprezo com que dirigiram as suas rotinas de prisioneiros.

Ali ficou Gabriel, junto à entrada do reduto norte de Caxias, da parte de fora dos muros intransponíveis que o albergaram durante dois anos menos dois meses menos dois dias – contagem que poderia ser ficcionada não o sendo – imóvel e encolhido, mãos nos bolsos, junto à cabina telefónica, ao lado da tv e do saco preto de plástico que pousara no chão, a seus pés, virado para a estrada à espera de uma boleia e observado, à rectaguarda, pelos guardas de vigia que, para gozarem o prato, lhe perguntavam, de vez em quando «Olha lá, ó 155, de certeza que não queres entrar para passar a noite? Deve estar um frio do caraças aí fora rapaz!»

Ali ficou Gabriel, e certamente não terá sido por acaso.

Consigo vê-lo ali parado, cheio de medo que de repente lhe aparecesse pelas costas um par de guardas para o levarem para dentro, consigo imaginá-lo a virar-se para trás uma mão cheia de vezes, disfarçadamente, medindo, sem o saber, a sua vida inteira com aquele olhar endurecido que ainda guarda qualquer coisa de menino, ainda incrédulo com a liberdade, ainda desajeitado pela falta de algemas e de escoltas, ainda duvidoso de que estivesse realmente ali, na parte de fora da prisão, de frente para o grande estuário do Tejo, cheio de boas intenções e profundamente comovido.

Fazia sol naquela  esplanada  em São Pedro de Sintra, lugar mágico entre arvoredos e chilreios, naquela manhã, e a tenda de lona plastificada nem sequer estava montada, mas a viagem no tempo foi inevitável. Leve, também. Dir-se-ia que o que perdura é,  sobretudo, um estranho e imprescindível sentido de humor.

Resta dizer que quando a velha Renault amarelo mostarda deslizou, em câmara lenta, pela velha estrada paralela aos corredores de celas do Reduto Norte, para que o momento pudesse ser vivido devagar, Gabriel jogou o tronco para fora da janela e gritou a plenos pulmões NUNCA MAIS…………

Parece que é da praxe que os prisioneiros dêem um grito das entranhas no momento da partida, como aquele, inesquecível, que certa vez ouvi lá dentro, no palratório.

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Uma resposta to “viagem no tempo à hora de um café pela manhã”

  1. e nasceu Gabriel, outra vez, desse NUNCA MAIS

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