Pode ter sido um sonho, É CLARO. Só pode ter sido um sonho.

Eu também já não percebo nada. Há instantes que nos são oferecidos pelos deuses quando à nossa volta a paisagem perde os contornos ou adquire contornos quase quase inesperados. Os sonhos sempre falaram comigo. A vida sempre falou comigo e não se cala. Nunca se calou. Quando eu era pequenina imaginava-me a cantar e agora que sou grande vou cantando devagarinho, e sonho com uma etapa qualquer, quimérica talvez, quem sabe, em que o correr to tempo possa ser subvertido e isto, vistas bem as coisas, é revolucionário, apesar de tantas vezes ser acusada de ser excessivamente contemplativa. Assim é, à primeira vista. À última também. Mas não terá um contemplador que ser também um soldado numa estranha sorte de guerra? E como pode alguém continuar a contemplar passivamente este estranho mundo sem ter alguma vez ou tantas vezes mudado de pele de boca de entranhas, sem ter alguma vez ou tantas vezes morrido e renascido porque quis, porque assim teve que ser? O que é isto de contemplar, afinal, de se ficar aparentemente parado a olhar, de olhos abertos ou fechados, tantas e tantas vezes, algo que está a passar-se, ou prestes a deflagrar-se, ou a acontecer a distâncias variáveis, por dentro ou na periferia? Nas últimas menos que vinte e quatro horas – um dia, sim um dia do calendário convencionado pelos homens – os deuses ofereceram-me instantes quando à minha volta a paisagem se tornou quase quase inesperada. Sei que flutuei pelos minutos de mais um dia de calendário convencionado pelos homens até encontrar uma parcela ínfima de espaço neste planeta onde esses instantes puderam acontecer – o quadrado de um quintal pavimentado com azulejos antigos, desbotados de tanto sol e tantas intempéries. Foi aí que me deitei a olhar as nuvens velozes que atravessavam o céu e pude contemplar essa maravilha tão azul e tão mutável. Aí me visitaram os sonhos de várias noites anteriores, entrecruzando-se com a realidade visível convencionada pelos homens, tal como acima de mim as nuvens se interpenetravam, formando continentes e costas fantásticas, gasosas, imparáveis, inapreensíveis a quem não se disponha a deitar-se de frente para o mistério do céu. Quantos anos já passaram desde há vinte e quatro anos, quando aterrei em Lisboa com dois meninos, vinda da Guiné? Pois, vinte e quatro. Pergunto-me se não será meu dever sagrado deitar-me no chão, de vez em quando, em qualquer dia do calendário convencionado pelos homens, para me relembrar das minhas urgências. Para me relembrar da morte. Para ter bem presente que vinte e quatro anos de vida dançaram comigo e criaram mundos tão ou mais fugazes do que aquelas nuvens que me dispus a contemplar ali deitada, qual Alice num país maravilhoso que por tudo e nada muda de dimensão, qual Alice que vê um mundo ora traiçoeiro ora encantatório de maneiras tão dolorosas e distintas?  Pergunto-me se não será meu dever sagrado deitar-me no chão de vez em quando e cada vez mais vezes pelos dias de calendário convencionados pelos homens e contemplar a forma como o vento dispersa os contornos das nuvens, para me relembrar da forma como os ventos da vida me arrancaram contornos, tantos contornos que imaginei sólidos e não eram afinal senão fiapos de uma nuvem empurrada por um qualquer sopro divino. Vinte e quatro anos, sim, e continuo com saudades de África e isto deve ser a vida a entabular conversa comigo… Pois é, porque a vida não se cansa. Somos nós, quando nos esquecemos das nuvens e do céu e nos deixamos engolir pela cadência falsa dos dias uns atrás dos outros como os homens convencionaram e os outros homens aceitaram, que cansamos a vida e a infectamos com o nosso cansaço virulento, ingrato e sistemático. Vinte e quatro anos e de repente, dois dias seguidos em que me deitei no chão e olhei o céu e escutei com algum cuidado o vento a dançar com nuvens e arvoredos. O que me queres dizer, ó Vida, desta vez? O que me gritas tu? Ah não, não te surpreendas tanto, criança. Não é verdade que todos os dias pedes palavras, sinais, tempestades que possam por fim deixar limpo o céu para que as nuvens que voam possam dançar desenfreadamente? Aceita. Foram vinte e quatro anos… não é verdade que os números nos remetem para a finitude? Não é verdade que temos que fazer contas à vida para melhor a honrarmos? Mais vinte e quatro anos será outra urgência, diz-me a vida enquanto uma nuvem portentosa se funde noutra, ocultando por um longo instante a luz do sol. Há momentos em que uma pessoa se assoma a uma montanha, a um miradouro. Talvez seja isso o que acontece quando nos deitamos no chão a olhar o céu cheio de nuvens a correr. É mais simples do que julgamos, subir a um miradouro. Mais simples do que julgamos, ver, e é preciso que doa. Talvez seja preciso chorar como nunca chorámos quando a vida desata a falar a sua linguagem de abismos e irreversibilidade. Ah como me cansam os homens que inventaram o correr dos dias uns atrás dos outros, como me entristece esse grande crime de convencionar a vida, de atribuir, em nome da inteligência, lugares profanos às coisas que são sagradas. Ensinaram-nos a fazer as perguntas erradas que nos levam aos labirintos errados, e o céu ali mesmo à mão de semear, a espreitar-nos por cima, a chamar-nos em sonhos e em lágrimas, e nós a chorarmos as lágrimas erradas. Hoje é segunda feira e passaram vinte e quatro anos. Mais vinte e quatro e quem serei se agora mesmo não começar a esculpir essa resposta? Mais vinte e quatro e a contagem pode ser decrescente na minha parte visível mas expandir-se noutro lugar que também existe e pede para ser contemplado. O Saint-Exupery dizia que o essencial é invisível para os olhos. O mundo está cheio de velhos, dizias tu. É verdade. Velhos desapaixonados, amargos, velhos que perderam a sua integridade pelo caminho e pretendem perpetuar essa infâmia. Velhos que não amam os jovens que engendraram. Velhos que não são anciãos. Velhos que nada têm a dizer e cansam a vida. Velhos que pensam a morte pelos labirintos errados. Velhos com os corpos envenenados por fármacos. Tu dizes, eu oiço. Estou deitada sobre uma pedra e escuto o céu enquanto falas e sinto que a verdade dança no ar que faz voar os cabelos daquela menina a correr ali em baixo, vês? Tu dizes, eu oiço e penso: não quero que o meu corpo suje as entranhas da terra e demore demasiado tempo a transformar-se em húmus venenoso. Não quero que a minha morte adiada corrompa a terra dos filhos do mundo. Em que momento e porquê nos esquecemos que habitamos um planeta que voga no ar, suspenso pelo próprio desconhecido? Em que momento e porquê decidimos abolir o mistério? Dizes tu. Estamos sós. Estranhamente sós. Miraculosamente sós quando nos deixamos tocar por esse mistério de que tão sabiamente falas. E no dia seguinte, sem premeditação, torno a deitar-me por terra, possivelmente para melhor interiorizar os ecos das tuas palavras, para ver como as nuvens desenham essa tua caligrafia mágica, para saborear mais um daqueles instantes oferecidos pelos deuses, para escutar os gritos da vida e chorar como jamais chorei.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: