paisagem (interior) de uma chegada

Paisagem (interior) de uma chegada

 

Cheguei à ilha na lua cheia que antecedeu o solstício de verão. Com aquele cansaço que se ganha nos momentos de auto-superação. Animada por uma energia ilógica, ou talvez mágica mas, em todo o caso, desproporcionada do meu arcaboiço físico, do défice de horas de descanso, da quantidade de alimentos ingeridos nos dias que antecederam a partida. Seria, pois, uma energia mais-que-física. Meta-física seria. Foi a terceira vez que lá aterrei, e, da segunda, para não perder o avião, que descolava pelas oito da matina, e também para celebrar, claro, dançara toda a noite, ou melhor, intercalara momentos de dança-de-autor com outros de observação embevecida dos experts em salsa, aos magotes no Barrio Latino, eles contidos na sua arte de poderosa liderança, elas esfusiantes nos seus vestidos de fantasia, rodopiantes nas suas sandálias sofisticadas mas genialmente concebidas para a dança. Isto para dizer que a minha condição à chegada é, sempre, próxima de um estado de abandono. Um estado de despojamento, ou de dissolução que, dir-se-ia, uma parte de mim induz no todo por alguma razão não aleatória que ainda não me atrevo a nomear. Ora nesta terceira vez estou, à chegada, por minha própria conta, sem anfitriões, e, por isso, entro na ilha como entram os seus nativos, sem hesitações mas com todos os sentidos alerta; no entanto, tudo decorreu como se sempre tivesse feito parte da minha vida fazer-me àquela estrada rumo àquele sul. Pergunto-me se alguma vez conseguirei descrever aquilo que me desperta a entrada na ilha, já que, para mim, se trata de um mistério. Um mistério nítido, o que ainda o torna mais desconcertante. Talvez por isso, e também, ou sobretudo, pela minha natureza nómada, ou devido a uma qualquer consciência, incómoda e profunda, das minhas células, de que não pertenço nem a um só lugar nem àquele a que as circunstâncias da vida me fixaram, tenha sonhos recorrentes com a chegada e a partida desta ilha, todos eles conturbados, ou, pelo menos, absurdos, como se alguma coisa no meu ser captasse uma espécie de poder sagrado que emana dessa terra e seus metais, seus elementos, suas águas, seu sal, seu ar morno e seco que apetece guardar na boca e saborear sem pressas. Sonho que estou de partida e não encontro o bilhete, sonho que chego atrasada ao aeroporto, sonho, até, que decido chegar com muita antecedência e  – oh, desespero – acabo adormecida, sentada, como uma estátua, numa cadeira de uma sala de embarque, à espera de um avião que acabo por perder. Sonho que conduzo um automóvel rumo ao sul, recém-chegada, e que o mar se chega à estrada numa fina e fresca onda, qual sinal secreto e auspicioso de boas vindas…

Se eu fosse fantasiosa diria que é o lugar que me fala, ou que os sonhos encerram códigos, ou que talvez exista ali qualquer coisa que tenha a ver com partes desconhecidas da história do meu espírito. Mas não. Digamos, apenas, que amo esse lugar. Ou que me sinto amada. O que quer que seja, alguma coisa é. Da primeira vez que aterrei no arquipélago, grávida, dei à luz Gabriel na montanha de Arteara (soube, muito depois, que existe nas Canárias, um triângulo de montanhas sagradas: Tindaya, na Fuerteventura, Timanfaya, na Lanzarote, Arteara na Gran Canária). Da segunda vez perdi, de facto, um avião, em Madrid, acabando por embarcar, no dia seguinte, num engenho da Air Europa, onde voei, forçada pelos fenómenos do mercado, em classe executiva e a um preço exorbitante multiplicado por três, pois ia acompanhada por esse que me nasceu nas ilhas e por uma descendente de nativos de outras ilhas mais a sul. Fuerteventura recebeu, pois, em 2007, Dezembro 27, uma mulher em desintegração e em crash financeiro absoluto, em plena época natalícia, depois de uma noite conturbada em Madrid e de lágrimas vertidas sob a pressão dos acontecimentos. Da terceira vez, em Setembro de 2008, descobri que me apaixonei pelas fotografias, e cruzei-me, no regresso, com um basco tão, aparentemente, arrogante quanto atraente e cheio de salero, com uma voz que me põe a estremecer, e que muito provavelmente terá sido meu amante em capítulos da minha história aos quais (lamentavelmente) não tenho acesso. Da quarta vez, a tal em que cheguei na lua cheia que antecedeu o solstício, foi-se-me uma mala, e, com ela, o meu tripé! O estranho é que nenhuma destas catástrofes se afigurou dissuasora, e sempre que vou, sempre que permaneço e sempre que regresso só penso em voltar a ir… Há coisas que são ali activadas. Uma leveza, talvez, funda e ancestral, um atalho para a minha essência, quem sabe. Mistérios a preservar, como aquele tentarei descrever de seguida.

É quando estou perto dos morros da costa oriental da ilha, ou quando observo a rebentação das ondas, ou quando entro no mar, ou quando consigo, por instantes, realmente saborear o ar seco e morno, que vêm à superfície reminiscências sensoriais da minha passagem pela Gran Canária ou, quem sabe, por outros lugares insuspeitados… Não são imagens, nem memórias concretas ou episódios com um fio condutor. Não são factos e sim flashes, como dejá-vu em que intervêm, sei disso, mais do que os cinco sentidos que costumam ser ensinados nos bancos da escola.

Admito, portanto, já ter vivido nos desertos, nas praias, nas montanhas do sul da Terra. Mesmo não sendo fantasiosa.

Tomemos, de novo, o tema da chegada. Falávamos da chegada a uma ilha. Ou talvez da paisagem interior da chegada a uma ilha. Porque há-de haver uma maneira de se dizer que aqueles montes, aqueles vulcões e as superfícies de onde se levantam me tomam num abraço antigo. Há-de haver uma forma de se dizer que aquelas distâncias que permanecem marcam uma nova referência, uma nova bandeira no meu mapa. Por isso voltarei sempre. Entrarei sempre nesse mistério de norte para sul. Tenho a certeza  de que existe um ponto, na estrada que marca um portal de entrada nesse santuário. Um ponto a partir do qual me pergunto, sem palavras, «o que é isto?!», um ponto a partir do qual, não tendo acontecido nada, algo se inicia na transparência do ar. Sei onde é. Sinto o lugar em que acontece. Sei-o porque quando percorro essa estrada no sentido inverso também consigo sentir que a ilha me saúda e me sussurra que me desprenda, e grava em cada partícula do que sou um pouco do seu brilho árido. Norte-sul, isto acontece após uma curva, ou talvez nela. Temos, à esquerda, o museu do sal, as salinas adjacentes à baía de Puerto del Cármen, e, ao fundo, suspenso num suporte frente ao mar, o esqueleto de uma baleia imensa que veio dar à praia sem que ninguém tivesse conseguido ajudá-la a fazer-se às águas. Até aí seguimos paralelos à costa, mas, depois, a estrada curva à direita, o mar fica para trás, perpendicular, e começamos a perceber, sem mais nem menos, que chegámos a um lugar poderoso. É a partir dessa curva que o fenómeno se dá. Se o percurso for sul-norte, apanha-se pela frente o súbito azul do oceano e, no retrovisor, fica o abraço da ilha. Pergunto-me se me transformaria numa estátua de sal se, nesse momento da viagem, me detivesse e olhasse para trás.

Foi na costa poente, ao anoitecer do penúltimo dia (ah, a magia, a perfeição dos últimos dias…) que pude partilhar a minha visão invisível do abraço da ilha com alguém que, não me conhecendo de parte alguma, dificilmente seria contagiado por tão subjectivas e improváveis impressões.

Em Ajui, a noroeste, uma pequena aldeia de pescadores  conhecida pelas suas grutas de rocha batidas pelo mar, existe, no alto de um pequeno morro debruçado sobre a praia, uma casa de chá chamada Téteria Puesta del Sol. Pertence a um homem que aí vende, também, os quadros que pinta e as suas fotografias. A téteria está sempre aberta até ao por do sol, e foi aí que abancámos num final de dia, numas cadeiras de madeira pintadas de amarelo, encostadas à fachada da casa, a beber um chá branco seguido de um café especial composto, entre outros ingredientes, de natas, leite condensado, limão e um tal «licor 43». Delicioso. O ilustre anfitrião fez um preço de amigo para as bebidas, que confeccionou, para as crianças, retirando licor e cafeína. Conversa puxa conversa deu a conhecer como lhe nasceu, de um sonho antigo, esse lugar-para-ver-o-pôr-do-sol, mas foi numa fotografia que lá tinha pendurada, um preto e branco de um dos vales do interior da ilha, que percebi claramente que tinha à minha frente um interlocutor com quem poderia partilhar essas  impressões sobre o fenómeno da chegada que se dá na curva de Puerto del Carmen quando se viaja de norte para sul, e, quando o fiz, com a destreza risível do meu castelhano de viajante de longa data, o homem, emocionado, disse: «Pois, o barranco del Cármen, bem sei. Benvinda a casa!» Acto contínuo, abre uma porta por detrás do balcão onde tão amorosamente prepara os seus chás e o tal café para crianças sorridentes, e convida-nos a espreitar o seu refúgio de adorador de ocasos. Ficámos sem saber o nome desse que tinha um olhar de índio antigo, mas não importa, porque, até ao pôr do sol, poderemos sempre visitá-lo e saborear um chá com partículas de luz.

Presumo, pois, que exista, realmente, na transparência do ar, algures no ponto em que a estrada curva abruptamente rumo a oeste, a seguir às salinas de Puerto del Cármen, um lugar onde convergem as forças do céu e da terra que nos puxa  para o abraço da ilha.

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