sapatos de menina

Leva, querido, o televisor, o leitor de dvd’s., o microondas, mas porquê os sapatos da menina???? Leva as obras que foram feitas lá em casa, os arabescos azuis e amarelos que ficaram nas paredes quando as pintámos caoticamente, de esponjas em riste, com as cores que nos saíram das mãos e da ousadia  ao misturarmos na tinta branca aqueles pigmentos que comprávamos na drogaria – o azul ultramarino, o ocre, o óxido de ferro e outro azul que agora não me vem ao coração…

Leva contigo, amor, o impalpável que nos ficou no espírito das nossas viagens mágicas às ilhas. Leva o telhado da casa que viste construir. Ainda deixa passar a água quando a chuva é muita, quando é soprada de suis e de orientes, mas é ele que nos abriga, é ele o telhado do refúgio de um menino e de uma menina que apareceram nas nossas vidas com lições de amor na bagagem. Leva contigo aquele teu cheiro que eu comia com todas as forças ondulando-me sob ou sobre ti, vertical, horizontal, lateral, engatinhada, e leva também, amor, e cuida que não se dissipe, a tua luminosidade, a tua generosidade, a tua paixão, a tua frescura, a tua graça.

Leva contigo a memória do amor com que me aninhaste no teu abraço, aquele pedaço de noite em que adormecemos entre beijos num parque de campismo lá na Horta, lembras-te? Eu lembro-me.

E em certos momentos, quando ando por outras ilhas lembro-me de ti. Desta vez foi quando nos apareceu à frente uma travessa de peixes fritos que traziam um aroma que continha a memória dos meus avós paternos – os únicos que conheci. Havia três janelas nesse restaurante, naquele ilhéu a sul de Lanzarote, eram duas da tarde, e o mar que se avistava era tão azul que nos doeu como doem os sonhos que sabemos serem sonhos e que por serem sonhos são apenas dádivas que irrompem e não podem ser prolongadas por vontades humanas, pois têm pesos e medidas concedidos pelos deuses. Foi diante dessa travessa de peixes fritos que eu disse à nossa filha que tu adorarias estar ali naquele momento, poder vê-la naquele preciso momento tão iluminada de azuis e de mistérios. Foi diante dessa travessa de peixes fritos que eu lhe contei que viajámos por ilhas nós os dois e que te amei. E isto? Como vais tu levar isto? Como vais tu levar nas mãos – e em que mãos – estas partículas de amor… a nossa história… ? Mas leva, peço-te que leves… leva tudo por inteiro aquilo que te pertencerá para sempre, a tua história, a tua substância. Estranho que nunca me tivesses pedido retratos daqueles momentos em que deambulámos como pássaros, talvez os mais belos e os mais leves das nossas vidas, porque essas imagens é que são metáforas, não são os sapatos da menina. Sapatos de menina que ela própria, para te agradar, depôs nas tuas mãos em silêncio e sem apegos, respeitosa do teu ensejo de os levares. Alguns desses sapatos que no fundo compraste para ti  e aos quais chamaste metáforas, foram fabricados em lugares remotos por seres humanos escravizados, e não podem ser metáforas de nada porque a menina a quem ainda servem não pode, afinal, calçá-los quando quer, sem se preocupar se pertencem à casa de lá ou à casa de cá, ou talvez sejam sim, metáforas, metáforas daquilo que fizémos acontecer na nossa história. São presentes condicionais-condicionados que te servem sobretudo a ti, porque ela já sabe que as coisas bonitas que lhe são dadas são apenas isso – coisas bonitas – que deve receber com gratidão, sem nunca esquecer que são objectos mais ou menos belos, mais ou menos úteis-fúteis-necessários-desnecessários-efémeros-descartáveis-esquecíveis- ou-para-se-guardarem-uma-vida-inteira, para que o seu coração não saia do lugar que os corações devem ocupar.  Fui eu que lhe ensinei. Gosto de lhe ensinar que ela tem um coração eterno, se é que ainda entendes este tipo de metáforas, estas que não são Nike Adidas Reebok Deeply Levis, estas que não são made in china made in corea made in indonésia, estas que não são compradas em grandes médias ou pequenas superfícies, estas que são ditas uma vez na vida com uma intenção determinada, com um irrepetível conjunto de palavras, com uma entoação de voz que só acontece uma vez em todo o sempre, estas que nunca deixarão de lhe servir, jamais ficarão pequenas para podermos dar aos pobres, estas que poderão crescer com ela, engrandecendo e expandindo a inteligência que lhe habita o coração, e além disso, amor, tantos sapatos não fazem falta à menina, eu sei que tu sabes.

E no entanto eu entendo, quase entendo. O ser humano sempre procurou rever-se em símbolos, sintetizar-se em símbolos, transpor para símbolos as suas dialéticas, por mais anti-simbólicos ou torpes que  possam ser os símbolos escolhidos, e além disso, amor. Tu sabes.

Tantos sapatos não fazem falta à menina.

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