algumas vez te aconteci?

Aconteceste-me e eu deixei que me tivesses acontecido. Com mais rigor, talvez, diria que fui eu que te aconteci. Fui eu que te apareci naquele lugar onde tu estavas e onde eu nem sequer queria ir mas fui. Há tanto tempo… Naquele tempo eu dei toda a minha beleza a esse acontecer. Aconteci-me em beleza para te acontecer a ti como uma espécie de aparição. Deve ter sido isso, sim, porque depois, um dia, tu contaste-me que naquele primeiro instante eu te tinha parecido uma pessoa recém chegada de longe, muito longe, e vistas bem as coisas até foi assim. Foi sempre assim… porque eu passo os meus dias a chegar das lonjuras e a inventar a beleza, a descobrir a beleza e a matá-la, também, e agora estou a aprender a acontecer-me.

Se estou apaixonada por mim? Reduzidas as coisas a essa formulação não te vou dizer que não mas… Ainda tenho heróis, ainda gosto dos meus heróis ou heroínas; posso dizer-te claramente como identifico os meus heróis, como os descubro. São coisas pequenas, quase indetectáveis. Pormenores. Pequenos brilhos. Se estou apaixonada por mim não é de uma paixão que me turve a visão do mundo. É mais como um acto de espanto que qualquer outra coisa. É mais como uma certa forma de sorrir ao ver-me num ou noutro ponto do percurso. Olha! Estou aqui, e em silêncio! Quem diria… E agora tudo parece mover-se ao contrário. As coisas passam pelas minhas mãos e desacontecem, o próprio pensamento desacontece-me. As palavras, ou a forma como as toco e me tocam, os lugares aonde me levam não me acontecem senão nesses desacontecimentos que doem mas ao mesmo tempo rasgam os véus que me separavam de outros reinos, de um desconhecido poderoso que é o devir visto com um olhar mais amplo ou num abraço mais certeiro, ou com um olhar mais certeiro e num abraço mais amplo.

Estou assustada porque tudo o que fiz acontecer parece agora tão distante, como se todos os mundos a que ofereci a minha beleza se tivessem dissolvido, mas não me esqueci de nada. Não me esqueci de ti e no entanto desaconteço-te. No fundo, talvez tenha voltado a esse lugar distante donde vim para te ver naquela noite, para te recordar. Uma vez – lembras-te de como eu gostava de passar os dias envolta nos meus sonhos – contei-te que sonhei contigo. Tu tinhas morrido e eu ficara cativa de uma saudade tão avassaladora que formulei o desejo impreioso de também morrer, para não me perder de ti em tempo e dimensão.

Deambulámos as nossas solidões por ilhas Atlânticas ou quem sabe Atlantes e, por momentos, eu sei que resgatámos o espírito da infância. Parecem fotografias de outra vida. Onde guardamos agora aquilo que só pudemos ser porque fomos os dois? Entrámos sem qualquer esforço, levados, quem sabe, por mãos de anjos, nessa dimensão mágica que soubemos habitar com uma liberdade irrepetível. Contámos uma história sem o sabermos e é essa a beleza que fica, a beleza dos instantes insensatos-impossíveis, a beleza ficcional mas não fictícia de dois seres que caminham juntos pelos trilhos das ilhas e a dezenas de metros um do outro, devorados pela luz azul-verde dos prados que se despenham no mar, pelo ar morno e salgado, húmido e vegetal que apetecia ter na boca e mastigar, pela surpresa sucessiva das linhas de água que escorriam nas escarpas, água doce vertical que convergia no sal horizontal daquele todo e imenso oceano, totalmente imersos em cada momento e totalmente em silêncio, a dezenas de metros um do outro esses dois seres que nós fomos.

Havia qualquer coisa em ti que eu julgava conhecer, qualquer coisa em ti que eu queria amar inexplicavelmente sem saber o que é o amor e foi assim que eu te amei, brutalmente, com tudo o que era e tudo o que tinha e sem saber o que é o amor.

Aconteceste-me, ou aconteci-te eu, num tempo e num lugar onde não estava, ainda, a (des)acontecer-me, num tempo e num lugar onde ainda não tinha começado a pensar no desacontecer do ser e no tecer da história, mas talvez te tenha realmente amado. Talvez, sim, te tenha realmente amado nessa paisagem desacontecida.


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