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Alguém devia fazer uma ode às hortas espontâneas que se vêem nascer nas margens do IC19 e da linha férrea que vai de Lisboa a Sintra. Alguém devia ir fotografar aquele milagre, aquela gente que desafia a paisagem suburbana e se apresenta nas franjas da capital, e, com o despojamento régio dos humildes, se agacha para remexer a terra e ajudá-la a parir o alimento. Quando passo pelas hortas que se puseram a nascer aqui tão perto dos escritórios antisépticos onde tenho passado tantas horas, das avenidas tantas vezes percorridas, dos ministérios, dos hospitais, das grandes superfícies, jardins, esplanadas, instituições financeiras e demais organismos reguladores da existência humana, assalta-me uma saudade indefinida de uma essência qualquer, de uma outra ordem das coisas, de um tempo mais distendido onde cabe a contemplação, de uma forma de estar mais conforme com o pulsar de um mistério que teima em ser esquecido. Quando passo pelas hortas que se puseram a crescer pelas franjas da capital pergunto-me se não estarei, se não estaremos quase todos a jogar na equipa errada. E quando me ponho a pensar no que representam essas gentes que fazem frente ao asfalto e ao ronronar atordoante da cidade, o que me vem à cabeça é que a verdade irrompe sempre como as lavas dos vulcões, imparável como as ondas do mar que se espraiam pelas areias e se despenham nos rochedos. Chega sempre o momento em que a verdade, ainda que oculta ou mascarada, delibera mostrar-se desnuda e por inteiro. Da mesma forma que as árvores e os arbustos brotam das ruínas e as ervas nascem, obstinadas, entre as pedras da calçada e pelas fendas do asfalto, as hortas dos pretos e dos pobres rebentam nas franjas de Lisboa como borbulhas obscenas. E dentro do automóvel, estrada afora, entre os acordes magicamente perfeitos da música do grande Bach, a visão dessa vida devolvida à terra pelas mãos dos ignorados e a ignomínia estampada nos rostos dos automobilistas a caminho de nenhures, sinto-me assaltar por uma certeza inabalável de não pertença, por uma necessidade imperiosa de sonhar, por uma estranha gratidão a esses artesãos que, de mãos vazias, viram as costas ao abismo da estrada e se debruçam sobre uma verdade visível, denunciando, com a eloquência singela de quem não leva subtextos na algibeira, a absurda irrealidade dos não lugares por onde se arrastam os cidadãos comuns.

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~ por lisadeoliveira em Terça-feira, 29 Maio, 2012.

2 Respostas to “imagem possível para hipotética primeira página”

  1. mulher, grandioso esta tua ode! vou roubar e publicar no FB !

  2. Mulher! Por momentos quando olhei a tua sigla – FB – fiquei atordoada. Estou de tal maneira habituada a manusear o FT (Finantial Times) que cheguei a imaginar que íamos levar estas hortas clandestinas a dar uma voltinha pelo mundo… 🙂

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