não direi húmido.

Porque se declaram tantas coisas e se declara tão pouco o amor? Talvez porque o amor seja aquela coisa deveras embaraçosa que deixa expostas as nossas fragilidades. Como em quase tudo na vida, uma pessoa tem que se exercitar. Não é preciso começar com um estrondoso «amo-te», e muito menos em voz clarificada e com o rosto iluminado por um foco de luz directa. Pode ser com um piropo aqui e outro ali. Há tanta beleza a assinalar se nos dispusermos a olhar com vontade da boa. Ao contrário do que se diz por aí acerca das palavras – que são levadas por ventos e por isso pouco valem – eu arriscaria afirmar que fazer o bem e dizer o bem são praticamente uma e a mesma coisa, isto quando as palavras são ditas a partir dos bons lugares da vida. Os antigos continuam a dizer que as palavras são poderosas e é para aí que me sinto inclinada. Mesmo que seja mentira. São opções da vida de cada um. Mas voltando ao acto de declarar o amor, não seria descabido pensarmos que declará-lo poderia ser o mesmo que deflagrá-lo, o que, por sua vez, seria sinónimo de fazê-lo, e fazer o amor deveria ser a ocupação permanente do género humano. Estes pensamentos também são opções da vida de cada um, é certo, mas mesmo assim peço aos amáveis leitores que fiquem comigo durante mais umas quantas frases que isto está quase a chegar ao fim. E já que ninguém nos ensina estas coisas nos bancos da escola nem à mesa dos repastos em família, porque não ponderar se merece a pena aprender a declarar, a deflagrar ou a fazer o amor? Mais uma vez, são opções da vida de uma pessoa. E como em quase tudo na vida, uma pessoa tem que se exercitar, o que implica cumprimentar as suas dificuldades nem que seja com um sorriso amarelo. E para passar à prática trago aqui congeminado um primeiro exercício para praticar à noite, na cama, junto ao ser amado. Escolha um daqueles dias em que o cansaço seja pronunciado, e vá entabulando uma conversa de embalar até sentir que o companheiro de leito está em vias de fazer a passagem para o estado alpha. Nota-se perfeitamente na respiração, como deve imaginar. Feche os olhos com força, imagine que se encontra num campo de batalha e que pode ser abatido a qualquer momento, mas que não quer desaparecer da existência com coisas importantes para dizer. Depois diga o de sua justiça, ou de seu amor. Se não estiver preparado para assumir a confissão pode sempre ressonar logo a seguir e fazer de conta que estava a ter um sonho não direi húmido mas pelo menos delirante. Possivelmente afeiçoar-se-á a este desporto radical, quem sabe… tornando-se, a pouco e pouco, um humilde artesão das artes e subtilezas  do amor…

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~ por lisadeoliveira em Quinta-feira, 17 Maio, 2012.

8 Respostas to “não direi húmido.”

  1. somos muito poucos…

  2. E dizias Tu (provavelmente estavas a mentir) que nao percebias o que se passa com a magia da pesca 🙂

  3. eu não sei se sou… talvez gostasse de ser, ou talvez já tenha estado mais longe de o ser… 🙂

  4. a relação entre isto e a pesca é algo que me escapa, mas interessa-me mais do que possas supor aí no Terminal! esclarece-me se faz favor! 🙂

  5. Pensei que podias ser tu a ensinar-me se pode ou nao ser um estado Alpha dormir de olhos abertos, ser evasivo o suficiente para habitar profundezas e conseguir sair delas. Auto permitir a flutuaçao.
    Claro que isto nao passa de um desvario pateta, mas …preciso de instruçao 😉

  6. Mim an Alpha beto

  7. nunca te aconteceu começares a sonhar antes de adormeceres, quero dizer, a ver situações e personagens a moverem-se, seu (Alpha) Beto?

  8. Melhor ainda. Tento muitas vezes escolher o sonho. Mas se o estado Alpha traduz a passagem do estado de acordado para o do sonho… como se chama o inverso ? E’ que acontece muitas vezes sair de um estado meio aereo, sonhador absolutamente alheio as distraçoes comuns que me envolvem e ao ter consciencia de habitar um qualquer limbo que me permito ,um estado concentrado de tarefa agradavel, sinto que todas as outras funçoes, as motoras e ate instintivas estao presentes e normais.
    Sera a passagem do sonho ‘a condiçao de acordado. Tem nome ?

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