pequena síntese a propósito da grande viagem de um grande pianista que foi mais do que isso

Cruzei-me com o Bernardo Sassetti várias vezes à porta do HotClube há bastantes anos, e havia nele uma espécie de simplicidade que chegava a ser perturbadora. Dava ideia que ele gostava de passar por ali, sim, mas que quando lá estava ficava com uma vontade irresistível de fugir. Havia nele uma integridade que de alguma forma sabia que teria que preservar não se identificando com os ambientes por onde se deslocava, e não permitindo mistificações. E como é que ele fazia isto? Com uma imensa candura. Apenas isto. Havia, talvez, uma vontade de não pertencer a nenhum meio artístico específico para poder pertencer a todos eles de uma forma escolhida. Por isso tocou com tanta gente, coisas tão distintas. Das poucas vezes que me cruzei com ele dei-me conta de uma descontaminação, ou talvez de uma imunidade que me cativou. Não deve ser fácil a uma pessoa com tantos talentos segurar nas mãos a chama pura da liberdade.

Deixo aqui uns quantos pensamentos sobre as pessoas que cometem a proeza de ter vivido assim. E quando falo em «grande viagem» estou a usar as palavras que  há dias vi o meu pai  escolher para designar a morte, no dia do seu octagésimo quinto aniversário. Estávamos em família e a enormidade que ele disse ficou a pairar pelo meio das tagarelices do costume, e eu fiquei com a sensação de ter apanhado a bola apesar de o golo ter sido marcado. Fica por aqui a minha pequena homenagem a um homem que suspeito ter sido capaz de manter desperta a sua criança sábia. Que seja luminosa e  infinita a sua viagem.

Fotografar é testemunhar de forma sublinhada. O fotógrafo reconhece o insólito que habita a realidade, arrancando-lhe instantes e, ao fazê-lo, arranca de si próprio o espanto de estar presente no mundo, devolvendo magicamente o espanto a quem olha os seus retratos. E dentro de uma imagem aparentemente desinteressante podem existir outras. O fotógrafo perscruta a imagem, arrancando-lhe a essência, e retira dela tudo o que está a mais, da mesma forma que o músico arranca a essência da música através do silêncio que lhe acresce. O fotógrafo nem sempre é aquele que segura nas mãos uma câmara fotográfica, da mesma forma que nem todas as pessoas que tocam instrumentos são verdadeiramente músicos. Aquilo que somos está muito para além do que fazemos, e por vezes dá-se a feliz culminação de aquilo que fazemos traduzir à letra o que profundamente nos habita. Assim, a um ser generosamente completo talvez não seja necessário ater-se a uma única forma de expressão, porque aquilo que é emana irresistivelmente dos seus poros, do seu olhar, da sua voz. Mas tanto melhor se pelo caminho tiver a ventura de descobrir e desenvolver um ou vários meios de divulgar as suas ressonâncias mais subtis, porque isso enriquece este tão necessitado mundo. É inevitável sentir-se gratidão pelos seres que emanam, porque é nessa emanação que a verdade respira.

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~ por lisadeoliveira em Segunda-feira, 14 Maio, 2012.

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