Eu Conto. De Natal.

Havia uma voz por entre a amálgama de sonhos que sonhou naquelas noites numa cidade quase estranha.  Sonhava com mares cujas vagas tudo devoravam, com viagens (in)apetecidas e temíveis, com desejos que não haviam sido desejados, com equívocos que o levariam a lugares aonde não deveria ir, aonde não queria ir. Sonhara, por entre o ribombar permanente dessa cidade quase-estranha-quase-íntima, com o vulto sombrio e insidioso de um qualquer alguém que o manipulava, perfurando a sua lucidez e fazendo explodir o fogo benigno da sua vontade verdadeira.

Mas havia uma voz por entre essa amálgama de sonhos, uma voz oculta no ribombar ininterrupto da cidade. Ou uma dor que o despertava e o obrigava a permanecer alerta, como que castigado, de pálpebras cerradas e olhos abertos para dentro, escancarados para o ribombar metálico da cidade revisitada, fixando o desamparo com que percorria a insónia, pensando em todas as histórias que nesse tempo paralelo se desenrolavam lá fora, desde os morros e desde os miradouros da cidade, lá fora desde o silêncio do céu.

Eram muitos os destroços que lhe chegavam nesses sonhos, nessas vigílias inusitadas, como armadilhas que o aprisionavam num imobilismo surdo, num silêncio em que fervilhavam sentimentos pungentes.

Talvez existisse, afinal, um destino, nessa cidade. Sim, uma espécie de destino que o ajudava a chorar. De noite abria os olhos e de dia chorava devagar. Pesavam-lhe nas pálpebras e em sentidos impalpáveis os sonhos que lhe atravessavam as noites como balas.

Olhava os transeuntes. Havia gritos que transbordavam dos sacos cheios de presentes de natal com que saíam das lojas. Pensava que era impossível que aquela amálgama de sonhos e de lágrimas nada tivesse a ver com toda aquela gente que deambulava pelas ruas fazendo arfar  uma cidade quase-íntima-quase-estranha. Depois, havia o mar. Um mar que mais parecia uma ilha banhada por sonhos e incongruências humanas. Uma ilha banhada por uma margem fulgurante chamada Promenade.

O Mar Mediterrâneo é uma ilha azul ou uma música em surdina. A Promenade é mais poderosa do que o mar, e talvez fosse essa desordem dos elementos que comandava o embate nocturno, aquela amálgama de anti sonhos que lhe roubava o chão e as estrelas.

Mas, ainda assim, houve uma voz. Numa certa noite houve uma voz que carregava uma mensagem. Qualquer coisa sobre o que são os instantes. Qualquer coisa de traduzível em palavras simples. Qualquer coisa como isto: nem todos os momentos são instantes. O tempo não é eternidade. Sim, são muitas as ideias que temos para a vida ou sobre a vida, e muitas as intenções que a ela dirigimos, mas a vida é a vida. Os mares tornam-se ilhas. As cidades ribombam incessantemente. Os sonhos separam-se de nós. A noite divorcia-se do dia e naufragamos no correr do tempo, engolidos por momentos que não são instantes, num tempo que estilhaça a eternidade e por vezes há destinos, destinos que tomam a forma de cidades quase desconhecidas banhadas por um mar tornado ilha, destinos que nos esperam para nos ajudarem a chorar mais fundo e nos mostrarem um vislumbre de rendição em certos instantes à margem do tempo que são algo mais do que momentos. .

 

~ por lisadeoliveira em Sexta-feira, 6 Janeiro, 2012.

2 Respostas to “Eu Conto. De Natal.”

  1. Miuda, ………………………………….. espetacular!!!
    ILY Bom ano de 2012

  2. um gandabomanoparatitambém. cheio de espirito………………………………………………………………….

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