dream come true
Sonhavam mudar de vida, de certa maneira, mas nada de muito drástico. Podia dizer-se, sem margens de erro significativas, que eram pessoas simples. Carregavam longas histórias e gostavam de observar o mundo. Cada um deles deleitava-se a observar o outro a observar o mundo. Certo dia, em jeito de divagação, imaginaram-se como uma dupla de detectives privados especializados na perseguição e identificação de coisas boas. Das boas coisas que parecem más que se desenrolam nas vidas das pessoas e por vezes as cegam e paralisam. Enfim, um trabalho comparável à reedificação de uma cidade no rescaldo de um cenário cataclísmico. Mas pensando bem poderia alguma vez dizer-se que isso constituiria, para a tal dupla de potenciais detectives, uma mudança de vida, mesmo tendo em conta que não sonhavam com algo de muito drástico? Não teriam afinal esses seres quase simples o simples sonho de não mais traírem quem são e muitas vezes não souberam ser? Pensando bem não sonhavam mudar de vida, esses tais seres quase simples, mas apenas mudarem-se para dentro das suas próprias vidas e fazendo-o com o descaramento de quem desencadeia um acto infeccioso. Por querer e de propósito. São mais ou menos estes os votos de feliz ano novo desta que vos escreve de um punhado de partes (in)certas….

Mundo Pequeno
(do livro “O Livro das Ignorãças”)
I
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas
maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas
com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os
besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter
os ocasos.
( Poema de Manoel de Barros )
olha se não é bem a propósito? diz ele que dos nadas cheios de profundidades que se ocupa. eu também quero, os nadas e as profundidades. beijo, minha querida