noites gloriosas

Ao invés de ser um mês de sínteses, um tempo de se fechar magicamente mais um círculo da vida, o mês doze é uma época de histeria colectiva e de desperdício de forças vitais. O natal deveria acontecer mais vezes na vida como um momento escolhido de celebração, mas não. não é nada disso que acontece quase sempre. e depois temos aquelas coisas estranhíssimas que são os jantares de natal institucionais. Um dia eu juro que hei-de faltar a um destes, mas ainda não me sobrou coragem para o fazer porque até gosto do chefe, fraqueza minha. Gosto do chefe porque ele é um homem de bom senso e me trata bem, e foi, até, um bom aliado numa daquelas alturas brutais da vida de uma pessoa. É por isso que vou à festa. À exorbitante e irreal festa de natal, onde não me resta senão testemunhar um desencontro previamente marcado entre seres humanos que se crêem ou se querem pertencentes a uma determinada classe. Depois há a roupa, o calçado, as unhas, os cabelos e o esqueleto. O esqueleto e a carne onde assentam todos estes adereços. Isto para quem se deixa levar pelo empolgamento de ver a coisa de dentro para fora ou de baixo para cima ou para quem tem diálogos com o esqueleto, ou seja para quem leva a vida a dançar.  Os convidados perguntam: qual é o dress code? e eu respondo à letra, livrando-me a custo da tentação de divagar. Vista-se a preceito por dentro,  por exemplo,  ou desnude-se de uma vez por todas para vermos quem espreita por detrás de tão prodigiosa fachada. Mas não, não cedo à tentação. Há o pão para pôr em cima da mesa lá em casa. Então os senhores que vão de fato escuro e gravata, e as senhoras que se aperaltem, é o que digo mais coisa menos coisa. Até que esta manhã uma distintíssima figura me pergunta «e a senhora como vai esta noite?», e eu penseii: «isto já é uma extrapolação!». E atrás de uma extrapolação de melhor ou pior tom oculta-se a oportunidade para descalçar uma bota em grande estilo, o que é a mesma coisa do que puxar-se um belo tapete. O único senão é que nem sequer estou ou estava nos meus dias. Tenho os olhos demasiado chegados ao coração e umas quantas lágrimas a acenderem-se por baixo dos adereços. Coisas mais fundas do que o esqueleto que me sustenta a carne, mas lá consegui arrancar ao caos contagioso de dezembro uma resposta que afugentou, cheia de risos, a distintíssima figura: «Eu??? Ora essa! Eu vou levar um vestido bastante acima dos joelhos… Na verdade e em rigor vai ser  um vestido pelas nuvens…»

~ por lisadeoliveira em Quarta-feira, 14 Dezembro, 2011.

5 Respostas to “noites gloriosas”

  1. adoro-te miuda….

  2. outro adoro-te na volta do correio!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  3. eheheh… lindo!
    beijinhos

  4. ehehehehh, lindo lindo mesmo, gostava de ser mosca, ou melga, para ouvir essa conversa e ver as fuças a essa gente… ehehehh, grande, és grande, por cima das nuvens, mesmo, mulher

  5. neste caso é uma pessoa comodeveser. O engraçado é que poderia ser uma das. outras, digo, das que aqui mais abundam. Este aqui apreciou a coisa. Digamos que sublimei com ele o que nem sempre se pode dizer aos demais. Saudades gigantes.

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